Uno e Múltiplos
- Mariana Ayres
- Nov 18, 2022
- 5 min read
Uno e Múltiplos é um conceito tão antigo quanto a própria filosofia. Muito se diz sobre os primeiros filósofos gregos estudando sobre permanência e mudança e as duas ideias predominantes na época: 1) a de que tudo é imutável e para sempre o mesmo, defendida principalmente por Parmênides, e 2) a ideia de que tudo muda, a famosa máxima “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio” de Heráclito. Com o tempo, ganhou-se o entendimento de que ambos, permanência e mudança, coexistem ao mesmo tempo. Porém o dilema ainda continuou com um novo nome e conceitos um pouco diferentes: Uno e Múltiplos, a ideia dos universais e da diversidade. Somos todos essencialmente iguais, já que somos feitos de átomos? Ou somos todos diferentes, por apresentarmos uma diversidade no ser? Somos Uno ou somos Múltiplo? O grupo de “gatos” é um só, Uno, por ter características relacionáveis, ou é distinto, Múltiplo, por apresentar diferenças em cada um dos seus componentes?
O propósito desse artigo é explicar como dois filósofos distintos, Platão e Agostinho abordaram o tema, também comparar as semelhanças e diferenças entre eles e, finalmente, apresentar uma visão bíblica do conceito.
Platão acreditava que o Uno e Múltiplo são irreconciliáveis. O Uno é perfeito, uma ideia pura que existe fora da criação, e o Múltiplo, são as coisas imperfeitas que existem neste mundo físico. Apesar de os Múltiplos derivarem do Uno, eles são tão marcados pela “multiplicidade” que são quase que irreconhecíveis e, certamente, irreconciliáveis. Isto é, Platão percebe as diferenças e semelhanças entre os gatos que existem na Terra, e diz que por conta dessas diferenças individuais eles não fazem parte do Uno, do mundo das ideias, onde o que existe é a essência pura e intangível do ser gato. Platão ainda propunha a ideia do Uno sobre o Múltiplo, dizendo que o Uno era essencialmente bom e incorruptível, e o Múltiplo era maligno e deveria ser vencido com a separação da alma (Uno) e do corpo (Múltiplo). Segundo ele, todo o conhecimento bom, honesto, justo e verdadeiro vinha da alma e todas as ideias ruins, caídas e enganosas vinham do corpo.
Agostinho, tendo importado suas ideias de Plotino, um plantonista, acreditava que o Uno superior era Deus, o único ser perfeito, e que todas as coisas derivam e comunicam o Uno. O Múltiplo tem que necessariamente emanar o Uno. Assim, ele percebe as diferenças individuais dos gatos e as acha válidas e provenientes de Deus; além disso ainda entende que esses gatos individualmente diferentes, de alguma forma, emanam algo sobre Deus, o Uno. Esse pensamento fez com que ele enfatizasse o quanto a natureza revela e emana verdades sobre Deus, (a natureza sendo um Múltiplo e necessariamente tendo que emanar do Uno). Porém isso deu base para cristãos católicos pregarem que meros objetos continham verdadeiramente a presença de Deus, como na eucaristia e em outros elementos como por exemplo, a água benta. Eles dizem que um aspecto da criação, nesse caso a água, emana Deus, como Agostinho defendia os Múltiplos emanando o Uno. Da mesma forma que Platão, ele acreditava que todo o conhecimento bom, honesto, justo e verdadeiro vinha de Deus (Uno) e todas as ideias ruins, caídas e enganosas vinham de nós (Múltiplos). Por colocar o Uno sobre o Múltiplo, isto é, os universais sobre as diferenças, Agostinho encontrou um dilema com a doutrina da trindade, onde Deus é essencialmente Uno e ao mesmo tempo Múltiplo. Entretanto, ao chegar em um entendimento mais concreto acerca disso, escreveu sua obra Sobre a Trindade, onde explicava a questão dizendo que é impossível para os Múltiplos entenderem e conhecerem tudo sobre o Uno.
As principais diferenças entre Agostinho e Platão são o que eles achavam que eram o Uno e os Múltiplos. Enquanto Platão acreditava que o Uno era o mundo das ideias puras, imutáveis, irredutíveis e essencialmente boas, que chamava de Mundo das Formas, Agostinho dizia que o Uno era Deus: um único ser irredutível, imutável, santo e verdadeiramente bom. Por outro lado, ambos concordavam quase que inteiramente sobre os Múltiplos, pois diziam que estes eram toda a matéria física, derivada do Uno. Por ser cristão, Agostinho também acreditava que anjos, seres espirituais, faziam parte dos Múltiplo e diferentemente de Platão, discordava que os Múltiplos eram irreconciliáveis com o Uno, pois Agostinho acreditava na redenção dos homens ainda em vida e também na da criação, que manifestava Deus de uma forma ou de outra. Assim, apesar das diferenças, podemos dizer que Agostinho era um Neoplatonista.
Porém, ambos parecem estar, em alguns aspectos, incongruentes com o que nos ensinam as escrituras. Ambos filósofos propõe um constante conflito entre Unos e Múltiplos, onde o Uno tem que vencer o Múltiplo ou onde o Múltiplo apenas emana mas nunca é o Uno. O que vemos na Palavra de Deus, entretanto, é uma união entre Uno e Múltiplo. O melhor exemplo que temos disso é a trindade. Pois cada uma das pessoas da trindade é plenamente Deus (Uno), mas ao mesmo tempo são distintas (Múltiplos). Da mesma forma Jesus, que é 100% Deus (Uno) e 100% homem (Múltiplo). Também a igreja que é plena e uma só (Uno), mas é também cada um dos filhos de Deus individualmente (Múltiplo).
Uma leitura equivocada da bíblia nos faria concordar com Agostinho quanto a ideia de que todas as coisas boas vem de Deus (Uno) e todas as coisas ruins de nós (Múltiplos). Porém, ao analisarmos as escrituras vemos que não é o ser humano (be human), ou ser Múltiplo, que nos torna ruins, mas sim, uma rebelião voluntária dos seres humanos contra Deus, que veio primeiramente com a queda. Assim, o que as escrituras evidenciam não é um constante conflito entre Uno e Múltiplos, e sim uma harmonia. O conflito existente, entretanto, é um conflito moral e não metafísico, isto é, não vem da essência e sim das ações. Não é nosso corpo físico que está corrompido, e sim nossas vontades. Uma visão adequada sobre Uno e Múltiplos e congruente com a bíblia, é aquela que diz que tudo na criação, e fora dela, isto é, Deus, é composto de Uno e Múltiplos. Todo ser humano é "a+algo''. Ab, ac, ad e assim por diante. Também Deus é Uno e Múltiplo, (como evidenciado pela trindade e pela natureza tanto divina quanto humana de Jesus). Apesar de serem Unos e Múltiplos diferentes, por sermos seres diferentes, os universais e as diferenças ainda estão presentes em todos nós e também em Deus.
Portanto, Platão acreditava que o Uno era o mundo ideal das Formas e os Múltiplos toda a matéria física; Agostinho concordava em partes, dizendo que o Uno era na verdade Deus, os Múltiplos eram todas as coisas criadas por Ele e que necessariamente o emanava de alguma forma. Porém uma visão mais alinhada com as escrituras nos mostra que o Uno e os Múltiplos são na verdade aspectos universais e diferentes em cada grupo de ser específico. É importante entender esse conceito, pois além de ser algo extensamente discutido na filosofia, também nos ajuda a compreender que somos todos seres individuais que compartilham de características universais, mas, nossa essência não está em constante guerra civil, na verdade a disputa que existe é voluntária e o plano de Deus teve como início e tem como objetivo final, a harmonia entre todas as coisas.
Referências
Rushdoony, R., et al. Rejeição À Humanidade: Os Efeitos Do Neoplatonismo No Cristianismo (Portuguese Edition). Editora Monergismo, 2018.
Sproul, R. The Consequences of Ideas: Understanding the Concepts That Shaped Our World. Crossway Books, 2009.
Comments