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O mito do bom selvagem

  • Writer: Mariana Ayres
    Mariana Ayres
  • May 2, 2022
  • 7 min read

Updated: Sep 29, 2022

O mito do bom selvagem


“O homem nasce bom. A sociedade o corrompe.” - Rousseau

A personificação do “bom selvagem” se solidificou com o filósofo francês Rousseau. Assim como diversos outros pensadores iluministas, ele acreditava que a maior tragédia que aconteceu com o ser humano foi o contato com a sociedade européia da época e as antecedentes. Acreditava-se que caso o contato entre humano e ideais do período não tivesse ocorrido, o indivíduo em questão seria, em seus atos e pensamento igualmente: puro, bom e livre. Não muitos anos antes, como observou Rousseau, seres humanos nunca antes tocados pela corrupção ocidental, foram encontrados aos montes em expedições para o Novo Mundo, atual Américas. O filósofo baseou sua tese inicial nos nativos americanos, utilizando a literatura e documentos disponíveis na época como base, instituindo assim o imaginário dos pacíficos, alegres e inofensivos indígenas. Tal imaginário foi tão bem aceito e consolidado que tem herança até os dias de hoje,estando presente na nossa literatura e cultura, sendo, consequentemente, a primeira coisa a vir à mente quando pensamos na relação entre índios e europeus. Mas mesmo que não tivéssemos herdado esse imaginário, o que os ocidentais recém chegados ao novo mundo fizeram com os nativos foi injusto e cruel, e isso é um consenso. A divergência surge no quesito à veracidade do mito do bom selvagem. Esse é um ponto onde não há acordo, existindo uma imensa quantidade de opiniões diferentes referentes ao tópico, sendo as duas mais extremas delas a total concordância com os ideais de Rousseau e a total discordância delas. E mesmo que extremos sejam, muitas vezes, a visão mais inflamada e, por consequência, as mais irracionais a serem dadas, o mito do bom selvagem é, indiscutivelmente, uma completa enganação. Dentre vários livros, artigos e diálogos desqualificando categoricamente os princípios do ideal, três argumentos se sobressaem e são suficientes para embasar uma contra-tese à Rousseau: observando a cultura indígina vemos nela componentes de crueldade, todas a testemunhas oculares que escreveram o contrário tinham, inegavelmente, um imenso viés e vontade de convencer mais pessoas a desembarcarem nas terras do novo mundo, e muitos caíram nessa história, ignorando o fato mais incontestável de que nenhum ser humano é intrinsecamente bom.

Elementos da cultura indígina mostram que sua humanidade, no pior sentido da palavra, não é apenas superficial, muito menos importada, mas está enraizada em séculos de tradições cruéis. Teminó contra Tamoio, Potiguar contra Tremembé, Tupiniquim contra Tupinambá, essas eram algumas das milenares inimizades entres as diversas tribos da ordem tupi-guarani que povoavam a costa brasileira. Guerras ferrenhas eram disputadas entre uma tribo e outra utilizando pedras afiadas pelo tempo, veneno de animais exóticos, espantosos despenhadeiros quilométricos e todo outro tipo de artimanhas naturais no lugar das balas de chumbo e espadas cortantes nunca antes vistas no continente americano. Guerras civis, apesar de existirem poucos registros, também não eram incomuns, e os banquetes que seguiam cada emboscada, muito menos. Uma festa antropofágica! Comer a carne de seu inimigo fazia parte da religião indígina de todas as tribos brasileiras. Dilacerar as mãos que mataram seus companheiros, dar sangue adversário a bebês recém nascidos e decorar os arredores com os restos mortais de um irmão humano, eram práticas comuns e muito bem quistas pelos indígenas. Era, para eles, um verdadeiro festival onde a vitória era celebrada com muita carne humana. Mas uma tribo específica, a dita mais cruel de todas, não apenas usava seus conterrâneos para banquetes após uma guerra bem sucedida, mas também para se alimentarem. Quando com fome, iam à caça de humanos. Matavam sem piedade e se esbanjavam da carne de sua irmandade. Sobre essa tribo, foi escrito por Jean de Lery, pastor calvinista que viveu no Brasil no século 16: “São grandes apreciadores de carne humana, e a comem por mantimento e não por vingança. É considerada a gente mais bárbara, mais cruel e mais indomável de todas as nações que habitam o novo mundo; selvagens estranhos e ferozes que não conseguem viver em paz nem entre si mesmos, e estão em guerra permanente com seus vizinhos e com os estrangeiros.”

Com o testemunho de Lery e outros que viveram no Brasil colonial, vemos que não foi por falta de relatos, mas sim pelo viés da época, que o imaginário do bom selvagem se instalou na Europa. Em Gênesis, primeiro livro bíblico, o magnífico jardim do Éden é descrito. Mesmo sem muitos detalhes, nossa criatividade voa tão alto quanto os lindos pássaros que imaginamos existir no jardim, fantasiamos um paraíso terreno. Os relatos providos por Américo Vespúcio, Pero Vaz de Caminha e Columbo, sobre as terras do Novo Mundo, se encaixavam quase que naturalmente com os devaneios do Jardim do Éden Terreal que circulava livremente na Europa medieval. Então não é de assustar a facilidade com a qual a sociedade aceitou de bom grado toda a imaculada propaganda que os governos da época anunciaram sobre o novo mundo. Principalmente na França, onde havia uma grande demanda de marinheiros que gostariam de se arriscar ilegalmente na costa nordestina do recém descoberto Brasil em busca da madeira que nomeou a terra, o pau-brasil, produto muito cobiçado naquele tempo. Para pedirem suporte financeiro para o projeto da França Antártica, comerciantes fizeram a "Festa Brasileira em Rouen” no ano de 1550. Em frente aos reis, Henrique II e Catarina de Médici, montaram nas margens do Sena um retrato vivo do Brasil do século XVI. Trouxeram índios verdadeiros e os usaram em encenações onde apareciam pescando, colhendo frutas e vivendo pacificamente. Na peça também foram incorporadas bonitas mulheres que passeavam entre as palmeiras artificiais, que eram, na verdade, prostitutas francesas contratadas para esse serviço e não realmente faziam parte do verdadeiro cenário brasileiro, o que chateou todos os marinheiros que caíram na dramática emboscada teatral. Mas todos aqueles que apresentavam um retrato real,- muito mais vivo e verídico do que o dos franceses, porém ainda assim extremamente dramático-, se mostraram mais dispostos a deixar o Brasil para sempre do que qualquer outra coisa. Martim Afonso de Souza, dono de duas capitanias, passou dois anos no país sem nunca mais voltar, ele disse: "Gastei perto de três anos, passando muitos trabalhos, muitas fomes e muitas tormentas.” Uma trilogia foi publicada em 1557 pelo alemão Hans Staden, que foi capturado e quase devorado pelos Tupinambá. Os relatos dos padres jesuítas também são aterrorizantes, descrevendo um lado cruel dos indígenas. Por tais relatos serem mais prováveis do que os fabricados, uma boa parte da população acreditava neles, resultando em obras literárias como A Utopia de Thomas More e A Tempestade de William Shakespeare, que satirizam o mito do bom selvagem.

Mas mesmo assim, o imaginário de índios pacíficos e puros ganhou mais poder, ignorando completamente a inegável natureza da humanidade e o mais fundamental dos fatos: não existe homem bom. A filosofia de que a sociedade corrompe o homem, implora que indaguemos: como o primeiro homem foi corrompido? E se um pequeno grupo de homens primitivos se corromperam e fundaram a corrompida sociedade europeia, o que impediria que um pequeno grupo de homens primitivos se corromperam do outro lado do oceano, mais especificamente, nas Américas? Além disso, essa filosofia iluminista é fundada na ideia de que bondade, igualdade e liberdade são a mesma coisa, e que a sociedade é mantida cativa pelo Estado, derrubando uma das pernas fundamentais do banco e portanto impossibilitando que qualquer um que viva debaixo de um estado seja bom. Mas os índios, seguindo esse raciocínio, eram livres, pois não tinham um Estado ou Governo, isso era principalmente verdade para tribos menores ou menos organizadas e dispersas, mas mesmo assim não viviam em igualdade e muito menos bondade. Na realidade, eles, assim como todo o ser humano nascido depois de Adão, são escravos do pecado, como descrito perfeitamente em Romanos 4 e 5.O único intrinsecamente bom homem a andar na Terra foi Cristo Jesus, e outro como Ele não haverá até a Sua volta. O único jeito de sermos minimamente bons é nos submetendo a Ele, nos tornando seus servos. Se o Estado parar de existir, o pecado ainda existirá, e portanto toda a maldade do ser humano, herdada de Adão: O Bom Selvagem, também existirá.

Ainda assim, muitos concordam com Rousseau e propagam o mito do bom selvagem, tendo-o como verdadeiro. Dizem que não é qualquer Estado ou hierarquia que corrompe o homem, mas sim o patriarcado e o governo capitalista; mesmo que não tivessem tido contato com a sociedade européia, os índios ainda seriam ruins, pois ideias patriarcais e capitalistas estavam neles, os tornando cruéis. Mas na realidade, a grande maioria das tribos indígenas valorizavam a mulher, dando as premissas dos alimentos a elas, deixando-as responsáveis por tarefas essenciais para a sobrevivência e contando a linhagem e herança a partir delas; sobre o governo, em tribos organizadas, os índios eram muito mais parecidos com socialistas do que qualquer outra coisa, dividindo seus alimentos, pertences e moradias. No entanto, nada disso os impedia de serem cruéis. Os que acreditam no mito do bom selvagem, também dizem que apesar de serem ruins, os índios eram muito melhores do que somos hoje em dia e do que os europeus eram antigamente; a cultura indígina era linda, sua devoção a natureza e uns aos outros é de ser invejada, mas os portugueses responderam com opressão e escravidão, apagando essa cultura. Bom, podemos todos concordar que assim como os índios, os colonizadores não são bonzinhos; também há consenso quanto ao estado da nossa sociedade atual, estamos cada vez mais afundados e com nossas mentes cauterizadas. Mas devemos admitir que um aspecto bom em uma cultura de forma alguma apaga os aspectos ruins, e vice-versa. Assim, não podemos defender totalmente um lado ou outro nessa situação. Os portugueses oprimiram, apagaram a cultura e escravizaram muitos indígenas, sim. Por outro lado, esses também atacavam aldeias portuguesas unicamente para matar e faziam mal a qualquer um, até mesmo aqueles que vinham em paz, como fizeram com Bispo Sardinha, que aportou perto de Olinda, no Nordeste, e foi enganado pelos índios a acreditar que eles o iriam ajudar; quando menos notou, foi preso e devorado para saciar a fome de selvagens. Os índios realmente tinham uma cultura da qual alguns aspectos podem ser usados de exemplo para nós, mas isso não muda o fato deles serem cruéis e ruins igual a qualquer outro ser humano; isso não vem do estilo de governo ou do patriarcado, mas do pecado.

Vemos, ao fim, que o mito do bom selvagem não passa disso: um mito, uma história, uma invenção, fabricada por indivíduos com níveis altos de viés e interesses comerciais, que instalaram o imaginário do índio pacífico na mente européia, ignorando totalmente os elementos nada bondosos da própria cultura indígina e o inegável fato de que não existe homem verdadeiramente bom. É importante que todos aqueles que buscam a verdade, e nada além da verdade, saibam disso, para não fazerem mau julgamento dos eventos do passado, os quais usamos para construir nosso futuro.


Bibliografia


Costa, P. G. A. “O Mito Do Bom Selvagem Como Elemento Da Identidade Nacional Brasileira”. PARALAXE, vol. 6, nº 1, dezembro de 2019, p. 53-69.


Bueno, Eduardo. “GOITACÁS - A TRIBO INDÍGENA MAIS SELVAGEM DO BRASIL”. Youtube, uploaded by Buenas Ideias, 19 fevereiro de 2020. https://www.youtube.com/watch?v=WSPrp9_L5ZA&t=2s


Bueno, Eduardo. “Brasil, uma História.” Cinco séculos de um país em construção, editado por Tiago Campos, Leya, 2019, p. 16-36.


Bosch, José Manuel Lara. “Primeiros Povos Brasileiros''. Descobrimento e Colonização.” História do Brasil, editado por Paulo Nascimento Verano, Barsa Planeta, 2011, p. 138-149.

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