top of page

O problema que não existe

  • Writer: Mariana Ayres
    Mariana Ayres
  • Oct 3, 2022
  • 6 min read

Updated: Oct 3, 2022

Como você descreveria uma mulher? Quais adjetivos usaria, e teriam eles quaisquer semelhanças à adjetivos usados para descrever homens? A escolha de adjetivos é, certamente, algo muitas vezes irrelevante para a maioria de nós, mas era o cerne do pensamento de Betty Friedan, autora americana que na década de 60 lidou com essa e outras questões em seu livro A Mística Feminina. Vindo de um contexto pós segunda guerra e estando inserida no meio do movimento que hoje conhecemos como primeira onda do feminismo, Friedan se incomodava principalmente com duas coisas: 1) A saída das mulheres do mercado de trabalho e 2) o motivo disso. Durante a guerra, a figura masculina foi, compreensivelmente, hipervalorizada. Propagandas de guerra faziam com que meninos crescessem aspirando nela ingressar, através da comparação de homens com heróis salvadores. Esse cenário bélico obrigou as mulheres a irem ao trabalho braçal, coisa que já acontecia e sempre aconteceu com aquelas de classe mais baixa, mas nunca antes foi a realidade da nata da sociedade. Quando retornaram ao final da guerra, o ego dos homens estava mais do que inflado, o que culminou irremediavelmente em mulheres voltando aos lares, já que seu serviço no mercado de trabalho já não era mais necessário. Tudo estaria bem, se o ego inflado dos homens não tivesse machucado o ego frágil das mulheres. Elas já sabiam viver sem eles, por muitos anos o fizeram, seu retorno certamente trouxe grande mudança. Betty Friedan argumenta que essa mudança foi para o pior, que mulheres não deveriam mais aceitar serem “rebaixadas”, e sua pesquisa, que entrevistou as mais diversas mulheres americanas, constatou que uma esmagadora maioria era “mais triste desde o retorno dos homens”. Sua tese era de que a tristeza vinha da subjugação, tirá-las do mercado de trabalho e trancá-las nos lares, era maléfico e procedente de uma mentalidade opressora que as enxergavam como inferiores pela sua biologia. Entretanto, essa redação tem como objetivo provar que a tese de Friedan é essencialmente errada e ontologicamente descabida. Para isso serão analisadas três esferas: 1) o mercado de trabalho, 2) a biologia, e 3) o lugar da mulher na sociedade.

O primeiro erro de Friedan foi considerar o mercado de trabalho como salvação e razão da existência humana:

“The only way for a woman, as for a man, to find herself, to know herself as a person, is by creative work of her own.”

Esse pensamento de que apenas o trabalho nos dá identidade, é um ponto compartilhado entre a autora e a ideologia socialista, que quer atar tanto o valor da mulher quanto do homem, em algo externo a Cristo, família ou sexo biológico. Para eles, homens e mulheres são igualmente pertencentes ao estado, seres humanos servos da sociedade. Porém, o erro é tanto em achar que a mulher só pode se encontrar no trabalho, quanto o de achar que o mesmo serve para o homem. Trabalhar braçalmente, após a Queda, se tornou um fardo, uma punição (Gn 3:17-19). Apenas no ideal feminista o mercado de trabalho é um privilégio. O verdadeiro privilégio é o que muitas mulheres experimentam, a oportunidade de não precisar trabalhar fora de seu lar, pois apenas a renda de seu marido é suficiente. Privilégio é poder se formar e exercer a profissão que mais lhe agrada sem se importar com a renda, pois não é você que tem o papel principal de prover financeiramente para a sua família. Privilégio é ter menos carga horária, mais dias de férias e aposentadoria mais cedo. Assim, o primeiro erro de Friedan foi atrelar a salvação e a razão da existência humana a algo diferente de Deus. Apenas Jesus pode nos livrar da iminente condenação vinda do pecado, e essa salvação graciosa nos dá nosso verdadeiro propósito, a razão da nossa existência: glorificar ao Senhor e se alegrar nele eternamente (Rm 11:36).

O segundo erro de Friedan foi desprezar as diferenças entre homens e mulheres, uma vez que alegava não haver nenhuma. A verdade é que, não importa o que autoras feministas gostem de acreditar, homens e mulheres são diferentes, tanto biológica quanto funcionalmente. As diferenças biológicas são muitas e óbvias; as de funções, entretanto, apesar de estarem muitas vezes ligadas com as biológicas, nem sempre ficam claras. Mulheres são biologicamente capazes de gerar filhos, são também as principais responsáveis pelo cuidado, criação e instrução quando eles nascem. Já os homens, são naturalmente mais fortes e resilientes tanto física quanto emocionalmente, também são os principais responsáveis por prover financeiramente e tomar as decisões finais. Esses são só alguns exemplos, pois muitos outros poderiam ser citados. A igualdade de sexos existe apenas em um aspecto: perante o Senhor em Cristo Jesus, pois não há distinção nenhuma para a salvação (Gl 3:28).

O último erro de Friedan foi a própria mística feminina, título de seu livro. Essa mística, segundo a autora, é o subjugamento das mulheres baseada tão somente em suas características biológicas. Ela argumenta que ao descrever mulheres, a sociedade da década de 60 usava apenas adjetivos como “maternal”, “sensível” ou “prendada”. Isso de certa forma as infantiliza, deixando-as eternamente em estado de dependência:

“Our society forces boys, in so far as it can, to grow up, to endure the pains of growth, to educate themselves to work, to move on. Why aren't girls forced to grow up - to achieve somehow the core of self that will end the unnecessary dilemma, the mistaken choice between femaleness and humanness that is implied in the feminine mystique?”

Essa é uma leitura absurdamente equivocada do papel da mulher no lar, emprestada pelo machismo. Quando enxergamos homens como superiores, seu papel vira o sinônimo de sucesso, enquanto as funções e aspectos femininos são sinônimo de inferioridade. Friedan, que se diz feminista, faz exatamente isso ao propor a mística. Igualando a feminilidade com algo infantil e menos desejável, buscando uma mudança desnecessária, e pior, uma ‘masculinização’ das mulheres. Porém, a verdade é que uma menina que sonha em se casar e futuramente cuidar exclusivamente de seu lar, deve sim crescer; encher-se sabedoria, alimentar sua aptidão natural à maternidade, praticar o cuidado com o próximo, que é facilitado por sua maior sensibilidade, e servir com suas “prendas”. Essas coisas não são, de forma alguma, inferiores, infantis ou nem mesmo fáceis (Pv 31:10-31). De fato, as mulheres foram criadas por Deus para servirem com todas as suas características ontológicas. O verdadeiro tesouro da feminilidade está em exercê-la, da forma natural como ela é presente em cada uma, para a glória do Senhor (Cl 3:23-24). Além disso, as mulheres foram criadas para o casamento (Gn 2:18-25), e apesar de haverem exceções (Mt 19:11-12), elas não devem ser tomadas como regra (Tt 2:3-5). Sendo assim, o problema da mística feminina não existe, pois a feminilidade de uma mulher recatada do lar não é inferior ou infantilizada, na verdade é tomada como via de regra bíblica.

Em conclusão, Betty Friedan erra principalmente em três pontos em seu livro A Mística Feminina, publicado em 1963: ao dizer que o mercado de trabalho é a principal razão da existência humana, ao negar as diferenças biológicas e funcionais dos homens e mulheres e ao inferiorizar o verdadeiro papel feminino. As consequências desses ensinamentos podem não ter ficado aparentes em poucos anos, mas trinta anos depois, a autora feminista Bell Hooks em seu livro Tudo sobre o Amor: Novas Perspectivas, apresenta as consequências. Segundo ela, 80% das mulheres americanas alegam que não receberam amor suficiente durante toda sua vida, enquanto apenas 20% dos homens dizem o mesmo. Isso é um resultado escancarado da aplicação da igualdade entre sexos proposta em A Mística Feminina. Quando se despreza as características especiais das mulheres, de serem mais frágeis e de necessitarem maior proteção (1Pe 3:7), não lhes é dado o devido amor. Quando homens enxergam as mulheres de sua vida como seres que demandam exatamente as mesmas coisas que eles, não lhes é dado o devido amor. Quando mulheres colocam seu valor em trabalho, sucesso ou dinheiro, induzidas por pensamentos feministas, não lhes é dado o devido amor. Somando isso a falta do evangelho e as atrocidades que elas cometem em nome da “liberdade da opressão”, os resultados da pesquisa de Hooks tem uma procedência mais do que óbvia. É importante que cristãos, tanto homens quanto mulheres, estejam a par dos erros grotescos do feminismo, e voltem-se a Palavra de Deus para saberem seus verdadeiros papéis (Sl 119:105), glorificando-o da forma que Ele planejou para que cada um fizesse e buscando satisfação somente Nele, cientes de que Ele é o único refúgio dos oprimidos, cansados e tristes (Sl 73:25-26). Mesmo que o ideal feminista esvai-se de nossa sociedade, essa não é a nossa salvação, nem deve essa ser nossa esperança, pois já somos salvos em Cristo Jesus e nosso consolo está em seu retorno (1Ts 4:17-18).


Referências

Friedan, Betty. The feminine mystique. Dell Publishing Co., 1963.

Hooks, Bell. All about love: New visions. William Morrow, 2000.


Recent Posts

See All
O diabo diz a verdade?

O Diabo pode dizer a verdade? Pode o adversário usar do próprio atributo de Deus em seu maligno repertório?

 
 
 

Comments


Post: Blog2_Post
bottom of page