Semana de 22
- Mariana Ayres
- Aug 19, 2022
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“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, [...] A outra espécie é formada dos que veem anormalmente a natureza, e interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. Embora eles se deem como novos, precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e com a mistificação.” - Monteiro Lobato (1917)
Há quem diga que o movimento de arte moderna brasileiro se iniciou com a semana de arte moderna de 22, mas para entendermos as origens desse rebuliço, temos que voltar alguns anos, e ir à Europa! As vanguardas francesas estavam, desde o início do século XX, em alta nas universidades de arte. Contavam com movimentos como o cubismo, dadaísmo e futurismo. Tais ideias, que rompiam tão escancaradamente com a linha de arte clássica que ocupava os lugares de destaque persistentemente desde a renascença, encantavam cada vez mais jovens proeminentes nos mais diversos ramos da arte. No Brasil, os grandes cafeicultores e outros com poder aquisitivo igual ou maior, mandavam seus filhos e filhas para estudarem em universidades europeias, onde aqueles que ingressavam no caminho artístico se viam rodeados das vanguardas que inevitavelmente os influenciavam.
Uma dessas jovens artistas era Anita Malfatti. Filha de família rica e paulista, fez sua primeira exposição no Brasil em 1917. Os quadros expostos foram de grande choque para os críticos e público geral, que ainda eram extremamente conservadores se comparados com os revolucionários franceses. Uma das mais duras críticas que recebeu foi a do escritor Monteiro Lobato, que a comparou com “furúnculos” apesar de elogiar incansavelmente seu grande talento para a forma de arte clássica, a qual era considerada “pura” por ele. Mas não apenas duras críticas à pintora recebeu, Mário de Andrade, também estava presente na exposição, sentindo os ânimos artísticos um tanto alterados como consequência da, inesperada e repentina para alguns, revolução artística, concebeu a ideia da Semana da Arte Moderna. E assim se deu início aos preparativos da semana de 22.
Mario se juntou com o escritor Oswald de Andrade e o artista plástico Di Cavalcanti, que juntos idealizaram o evento. O ano escolhido não poderia ser outro, 1922 marcava o centenário da independência brasileira, nada mais poético do que cem anos mais tarde propor a independência das artes brasilienses! O patrocínio não foi difícil. Não sabendo direito do que tratava, mas vendo que traria mais reconhecimento à cidade de São Paulo, cafeicultores paulistas e até mesmo o então governador Washington Luís, patrocinaram o evento de bom grado. Com todo esse apoio ficou fácil alugar o melhor dos espaços para a empreitada. O Teatro Municipal de São Paulo. Casa da arte clássica, retrógrada e copiada. Lar dos parmasianos que abriria suas portas para seus próprios inimigos. Estava, assim, tudo pronto.
Então, dentre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, não por uma semana mas sim por três dias e três noites, houve a Semana de 22. Todo o prédio fora preenchido com exposições modernas, diferentes e chocantes, que destoavam propositalmente e sem remorso do romantismo, parnasianismo e simbolismo. Ao entrar, a primeira obra vista era uma de Anita Malfatti. Relatos dizem que aos montes, a elite curiosa adentrava o salão e olhavam confusos para as telas, se perguntando, muitas vezes em voz alta, se o quadro estava torto ou se a artista o havia pintado durante um terremoto. Muitas outras expressões seguiam essa, artes plásticas, arquitetura, escultura e literatura. De noite aconteciam os recitais. Na primeira noite foi recitado “A emoção estética na Arte Moderna” de Graça Aranha, que entediou o público. Mas muito diferente disso, na segunda noite Ronald de Carvalho proclamou o poema “Os Sapos” de Manuel Bandeira, que fazia dura e nítida crítica aos poetas parnasianos tão aplaudidos naquela mesma sala. Os uivos, vaias e a geral desaprovação foi livremente e coletivamente expressada por muitos, senão todos, dos que ali estavam, o que não desanimou os modernistas, na verdade lhes servia de lisonja. Similarmente, na noite de fechamento, o músico e compositor brasileiro, Heitor Villa-lobos, subiu ao palco para reger uma orquestra não muito convencional. Instrumentos clássicos acompanhados de reco-reco, tambores africanos e indígenas. Para finalizar, ele ainda estava descalço de um pé, o que rendeu mais vaias e críticas ao evento.
O criticavam pela falta de seriedade e compromisso com a arte, mas havia alguém mais compromissado com ela, senão os modernistas que lutavam não sutilmente para transformá-la em algo novo e totalmente brasileiro? A semana de 22 não deu início ao modernismo no Brasil, mas o elevou a um patamar revolucionário o qual não antes ocupava. Porém a desaprovação dos apreciadores conservadores ainda não havia sido vencida, muitos manifestos seguiram pelos próximos anos para tentar convensser a elite cultural, que era ainda tão aversa a “picasso e companhia”. Entre eles o mais emblemático: MANIFESTO ANTROPÓFAGO de Oswald de Andrade direto de Piratininga, que propunha que fossem revisitadas e aderidas às práticas canibalistas dos índios brasileiros, mas em uma perspectiva artística. “Tupi, or not tupi that is the question.” célebre frase demonstra a proposta: consumir do estrangeiro mas ter o verdadeiramente brasiliense como prato principal. Ainda hoje estamos no período chamado de moderno, aquele que tanto se distanciou no clássico, romântico, parnasiano. Vivemos plenamente o que tantos artistas lutaram para conseguir: a liberdade de uma arte sem amarras, regras ou expectativas. Não podemos de forma alguma menosprezar essa liberdade que atualmente é nos dada de mãos beijadas, pois reprimir a arte é essencialmente reprimir a expressão do ser.
Referências
Bandeira, Manuel. Carnaval. Global. 1919
Andrade, Oswald de. MANIFESTO ANTROPÓFAGO. Revista de Antropofagia, Ano I, No. I, maio de 1928.
Barbosa, Mariê. A poesia na Semana de 22: para além de Mário e Oswald. Querido Clássico. 16 feveriro de 2022. https://www.queridoclassico.com/2022/02/a-poesia-na-semana-de-arte-moderna.html
Paulino, Roseli. Semana de Arte Moderna – Brasil 1922. ARTISTAS. 13 fevereiro de 2017. https://arteeartistas.com.br/semana-de-arte-moderna-brasil-1922/
Paiva, Theotonio de. Paranóia ou mistificação? OUTRAS PALAVRAS. 26 abril 2014. https://outraspalavras.net/sem-categoria/paranoia-ou-mistificacao/
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