Literatura Realista no Brasil
- Mariana Ayres
- Jun 10, 2022
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“Digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.” - A Mão e a Luva (Machado de Assis)
O realismo começou na Europa com Gustave Flaubert (1821-1880). Esse estilo literário veio como proposta contra o romantismo, nele voltamos a atenção para um personagem comum, imerso em hipocrisia, tensões, ironia e o natural pessimismo da vida. Mas não só no personagem que esses dois estilos literários se diferem, também a proposta de um vitorioso final é quebrada, e o próprio andamento da história é bem diferente, não precisando necessariamente ser em ordem cronológica ou linear. No Brasil, uma das primeiras obras realistas publicadas é O Guarani, de José de Alencar em 1857, que trata bem cruelmente da realidade dos indígenas e o que aconteceria caso eles tivessem um contato mais próximo com a alta sociedade. Mas sem dúvida o autor realista de mais renome em nosso país é Machado de Assis, fazendo sucesso mundial com sua “trilogia realista”, constituída de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borbas e Dom Casmurro, todos publicados entre 1881 e 1899. As três são um ótimo exemplo do que a literatura realista era, personagens ordinários, com problemas e tensões causados ou por eles mesmos ou pela sociedade, e que podem, ou não, ter uma solução no final, ou no meio dependendo de qual ordem a história segue.
E apesar do nome, o realismo nem sempre segue alguma lei da realidade, como é provado na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas. Como o próprio nome sugere, o narrador-personagem da história está morto, ele inclusive dedica o livro aos vermes que devoraram seu corpo em decomposição. Um morto escrever livros definitivamente não é algo visto na realidade. Mas outros aspectos tornam essa obra uma referência do estilo, como por exemplo, o tom pessimista que é carregado por todas as páginas; os problemas, que são todos culpa do caráter do narrador-personagem, não tem uma resolução; e a história não segue uma ordem linear, começando com a morte e acabando com o auge da meia-idade, tendo no meio passado pela infância, juventude e velhice. Nesse livro também encontramos extrapolações da estilística realista: um capítulo inteiro escrito apenas com pontos finais, sem falas, como se fossem suspiros, palavras não ditas ou até mesmo pensamentos desconexos, pois essa é a beleza do realismo, ele é tão confuso e sem sentido quanto nossa própria realidade.
E esse é um tema recorrente em obras da época, como vemos em Dom Casmurro. Na obra, Bentinho tem a dúvida cruel e persistente de que sua esposa o traía com seu melhor amigo. Lemos as mais estranhas paranoias, provas e argumentos criados pelo próprio personagem, sem nunca saber o outro lado da história. E é justamente por isso que esse livro é conhecido. Afinal de contas, Capitu traiu ou não traiu? Assim como em nossas vidas, muitas vezes ficamos presos em nossas próprias convicções, sem nunca olhar o outro lado ou considerar algo além daquilo que já assumimos como verdade, e é essa confusão humana que vemos nas páginas da obra. E como todo bom livro realista, não nos é dado resposta alguma no final, ficamos assim para sempre imaginando o que poderia ter sido, o que se difere bastante das respostas concretas e assertivas que temos em livros do período romântico.
E apesar de o realismo ser uma completa e direta oposição ao romantismo, isso não quer dizer que não haja obras realistas focadas no romance. Em A Lucíola, obra de José de Alencar lançada em 1862, seguimos Paulo em seus inflamados encontros com a prostituta Lúcia. Vemos a luxúria inicial se transformar em amor romântico de forma bem semelhantemente vista em obras do período romântico. Mas comose trata de uma obra realista, o amor dos dois é assistido por uma escura nuvem de pessimismo, e eles nunca conseguem viver o romance heróico que viveriam caso tivessem sido idealizados em uma época diferente. No final, não vemos uma fuga da prostituta e seu amante e não lemos sobre como eles viveram felizes para sempre em uma cidade longínqua onde ninguém sabia dae sua reputação. Na verdade o que temos é Lúcia se achando indigna do amor de Paulo, e acabando por tirar sua própria vida, pois julgava que assim Paulo estaria livre do cativeiro que seu sexo o havia colocado.
Um dos capítulos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, simplesmente diz “Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútl.”, e apesar de muitos dizerem que esse é um dos ápices do realismo, essa curta frase definitivamente não o descreve. Pois esse estilo literário foi, e sempre será, um dos maiores marcos da literatura brasileira e sua maior contribuição para esse pedaço da história. Com esse estilo fazendo sua volta nos dias modernos, podemos olhar para trás com muito orgulho e admiração, porque esse certamente foi um lindo, e útil, capítulo escrito em nossa história.
Referências
O livro da literatura. 2ª edição, Globo Livros, 2018.
de Assis, Joaquim Maria Machado. A mão e a Luva. 1874.
de Assis, Joaquim Maria Machado. Dom Casmurro. 1899.
de Assis, Joaquim Maria Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1881.
de Alencar, José. A Lucíola. 1862.
de Alencar, José. O Guarani. 1857.
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