A fagulha da independência brasileira
- Mariana Ayres
- May 7, 2022
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“Deus guarde a preciosa vida e saúde de Vossa Majestade como todos nós brasileiros desejamos”, assinou Dom Pedro I na carta que enviou para Portugal após a declaração da independência, já se contando dentro do grupo dos brasileiros.
D. João VI, rei de Portugal, saiu do Brasil em meados de setembro de 1821. Deixou seu filho D. Pedro I e sua nora Dona Leopoldina como príncipe e princesa regentes. Em 9 de dezembro do mesmo ano chega um decreto ao Brasil, redigido pelos deputados portugueses, que ordenava a volta do casal regentes a europa e assim que isso fosse cumprido, se daria início a uma recolonização no Brasil, onde o pais seria novamente uma mera colônia, sem voz, sem iniciativa, forasteira em suas próprias terras. D. Pedro I aceitou as propostas sem pestanejar, mas o povo não gostou nada disso. E assim se iniciou a fagulha da independência brasileira. Através de cartas e documentos originais da época sabemos como essa fagulha se incendiou e está acesa até hoje.
As conspirações explodiram por toda a parte. No final de 1821 e começo de 1822, D. Leopoldina já estava decidida a lutar por, no mínimo, a emancipação política do Brasil a Portugal. Ela se comunicava com Shäffer, um padre de Viena residente no Brasil, que fazia a ponte entre a princesa e os patriotas brasileiros que conspiravam a favor da independência e planejavam como melhor a executar. Inicialmente, D. Pedro não estava disposto a perder sua herança em Portugal, o que certamente aconteceria caso ele se movesse em favor dos conspiradores. Sem a cooperação do príncipe, D. Leopoldina fazia de tudo o que estava sob seu alcance para retardar a volta do casal para Europa, o que daria início ao plano portugues de recolonização brasileira. Com a triste morte de seu filho primogênito por armação de soldados portugueses, D. Pedro finalmente se posicionou mais veementemente a favor dos patriotas, apesar de ainda não o fazer inteiramente e publicamente devido a enorme quantidade de espiões portugueses no palácio, observando cada passo dos monarcas regentes. Mas apesar da maior parte dos europeus estarem contra a independência, todos os brasileiros a almejavam.
O povo brasileiro estava, indiscutivelmente de acordo com qualquer movimento a favor de sua maior liberdade, fosse a emancipação política ou a total independência. D. Leopoldina temia que os esforços para liberdade do país resultassem em uma nova revolução francesa onde o povo se revoltava contra seus próprios líderes. Mas logo a princesa notou com grande alegria que os brasileiros não viam o casal real como inimigos, mas sim como aliados em prol da liberdade. O povo brasileiro de todos os estados estava contra a ida de D. Pedro I a Portugal e mandavam cartas e cartas suplicando por sua estadia. O que culminou no dia do fico em 9 de janeiro de 1822: “Se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação, estou pronto: digo ao povo que fico!” Mas não só para o monarca ficar que eles suplicavam, várias cidades mostraram apoio a idea de independencia total de Portugal, sendo as demonstrações mais famosas as cartas as das mulheres baianas, “...possuídas do maior respeito, depois de congratularmos aos nossos conterrâneos por termos entre nós tão preciosas e augustíssimas pessoas, vimos oferecer os nossos corações, únicas oblações que pôs a natureza ao alcance do nosso sexo, para que faça a posteridade o devido conceito das brasileiras e, em particular das baianas", e a aliança do influente paulista José Bonifácio, que acabou se tornando um dos secretários de D. Pedro I e um dos principais articuladores da declaração de independência. Reconhecendo o suporte do povo, os monarcas homenagearam as províncias que mais os apoiaram nomeando suas duas filhas que nasceram na época da independência de D. Januária (como em Rio de Janeiro) e D. Paula Mariana (como em São Paulo e Mariana, cidade de Minas Gerais). O apoio geral da nação, tanto da plebe quanto da aristocracia, era crucial para todos moverem juntos em direção à liberdade.
“O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece.” alertou D. Leopoldina à seu marido vendo a oportunidade se apresentar cada vez mais clara no horizonte brasileiro. Tendo o apoio do povo, o príncipe regente tentou, dentro da legalidade, conseguir a emancipação política de Portugal. Em 6 de agosto de 1822 enviou um "manifesto às nações amigas” à Europa que pedia aos demais líderes que tratassem com ele de assuntos referentes ao Brasil e não mais com Portugal. Mas nessa mesma época um grupo de conspiradores patriotas foram ao continente com a missão de contratar mercenários para lutarem em alguma possível e eventual batalha que Portugal escolhesse travar no Brasil, pois esse grupo advocava pela independência, e não emancipação, e essa definitivamente não aconteceria pacificamente. Redigida em 1 de julho de 1822 pelos deputados portugueses, chegou ao brasil em 2 de setembro do mesmo ano o decreto que repudiava todos os avanços pacíficos de emancipação política propostos pelo príncipe, também mandavam prender diversos patriotas e reforçavam mais uma vez a recolonização que pretendiam tão autoritariamente instaurar no país. D. Pedro estava em São Paulo quando leu a carta no dia 7 de setembro de 1822, essa veio acompanhada de cartas da sua esposa e de José Bonifácio, ambos suplicando que o monarca desse o próximo passo, pois não havia mais nada a ser feito dentro da legalidade e o Brasil não poderia mais viver sob jugo de Portugal.
Relatos dizem que ao acabar de ler as cartas, o príncipe regente teve um acesso de raiva, amassando todas elas e finalmente colhendo o fruto maduro. Declarou a independência nas margens do Rio Ipiranga na cidade de São Paulo. Naquele momento ele e seus soldados acompanhantes tiraram as fitas azuis-e-brancas de seus uniformes, que simbolizavam o reino de Portugal, e eu chegar ao Rio de Janeiro as substituíram por verde-e-amarelas, cores do império brasileiro, que fazem parte da nossa bandeira até os dias de hoje.
Onde foi proclamada a independência existe atualmente uma pira, que está sempre acesa. Ela representa a fagulha iniciada por conspiradores, fomentada pelo povo e então finalmente incendiada pela plena liberdade brasileira dos portugueses. Com palavras de D. Pedro I: “O Brasil será escravizado, mas os brasileiros não, porque, enquanto houver sangue nas veias, hão de correr e primeiramente todos hão de conhecer melhor o rapazinho e até que ponto chega sua capacidade.”
Bibliografia
Bosch, José Manuel Lara. “Primeiros Povos Brasileiros''. Independência e Império." História do Brasil, editado por Paulo Nascimento Verano, Barsa Planeta, 2011, p. 167-187.
Rezzutti, Paulo Marcelo. “A Mulher que Arquitetou a Independência do Brasil.” A história não contada, editado por Eduardo Carneiro, Casa da Palavra, 2017, p. 202-237.
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