O diabo diz a verdade?
- Mariana Ayres
- Aug 11, 2022
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O Diabo pode dizer a verdade? Pode o adversário usar do próprio atributo de Deus em seu maligno repertório?
Na peça de Shakespeare, Macbeth, essa questão é levantada por Banquo. Que ao ouvir a enganosa profecia das bruxas, concluí que só pode se tratar da voz do diabo, sussurrando verdades ao pé de seus ouvidos para o desviarem do caminho em direção ao profundo poço de seus próprios pecados.
“Banquo - Mas é estranho, porque muitas vezes, no intuito de conduzir-nos até a destruição, os instrumentos de Satã contam-nos verdades, cativam-nos com insignificâncias claramente honestas, só para trair-nos em consequências as mais profundas.” (1.3)
Lendo a peça é nítido que Banquo estava correto, pois Macbeth caiu pelo plano das potestades do mal e se afundou em sua, até então latente, ambição. Mas dentro da peça, o personagem não percebeu a armadilha tramada pelas bruxas por acreditar que o diabo, e seus empregados, não podem dizer a verdade, pois ele é o pai da mentira. Mas como será mostrado nesta dissertação, o diabo usa a verdade para seus nefastos fins. Vemos o adversário se utilizando desse atributo de Deus como estratagema em, principalmente, três contextos diferentes: na bíblia, em histórias literárias e na igreja atual.
Uma passagem bíblica muito conhecida é a tentação de Jesus no deserto. Em Mateus 4 e Lucas 4 lemos o diabo se utilizando da Palavra de Deus, a bíblia, como uma tentativa ingénua e falha de atrair Jesus para o pecado. Ele diz: “Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, porque está escrito: Mandará aos seus anjos, acerca de ti, que te guardem e que te sustenham nas mãos, para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra.” (Lucas 4:10-11), e ele realmente diz a verdade ao citar esse trecho, apenas a tirou de seu contexto original. Da mesma forma que a serpente, o próprio adversário, utilizou de verdades distorcidas e tiradas do contexto para persuadir Eva a comer do fruto proibido: “Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” (Gênesis 3:5), e seus olhos foram abertos para o bem e o mal. Mas não apenas o diabo diretamente, também seus mandatários podem uma vez ou outra se utilizarem da verdade como lemos em Marcos 13:22-23 quando Jesus nos alerta: “Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão sinais e maravilhas para, se possível, enganar os eleitos. Por isso, fiquem atentos: avisei-os de tudo antecipadamente.” Tiramos disso, então, que falsos profetas com o intuito de enganar os eleitos, irão dizer verdades, sinais verdadeiros, mas todos com nefastos fins.
Esses eventos também mostram-se em histórias literárias. Uma história inteiramente baseada em profecias verdadeiras, mas enganadoras, e suas desastrosas consequências é Macbeth de Shakespeare, onde o personagem principal, acredita fielmente nas profecias diabólicas das bruxas, pois elas se mostram verdadeiras, e isso o leva a ruína: “Macbeth- Duas verdades foram ditas, como alegre prólogo ao prometido e imperioso ato de imperial tema. Essa sedutora, sobrenatural proposta não pode ser maléfica. E se for maléfica, por que me deu um sinal de sucesso futuro, inaugurando-o com uma verdade?” (1.3). E esse tema aparece novamente na literatura gótica britânica no século seguinte à publicação de Macbeth, que é inaugurada pela obra O Castelo de Otranto, onde também há uma profecia. O rei, Manfredo ouve uma velha profecia de que sua descendência não mais herdará o trono, o que se mostra futuramente ser verdade. Por acreditar na verdadeira, mas enganosa, profecia, ele vai tão longe a ponto de propositalmente e abertamente adulterar e matar sua filha. Mais de uma vez a literatura nos mostra as consequências de acreditarmos fielmente em verdades nefastas.
Isso nos deveria servir de aprendizado, pois também no contexto da igreja atual, o diabo usa a verdade e nossa crença nela para nos atar ao mal. Um exemplo óbvio, recorrente e triste, são igrejas heréticas, também chamadas de seitas, que dizem muitas verdades incontestáveis, mas por de trás são uma grande mentira e armadilha que mantém como reféns muitos ingênuos que caem no conto. Não só igrejas específicas, mas também teologias que se infiltram em mais de apenas uma denominação: a teologia do amor próprio e a teologia da libertação são as duas em alta nos tempos atuais. O amor próprio é obviamente bom e autoestima deve ser uma característica de todo cristão, mas essa verdade é distorcida quando ensinam que não devemos apenas nos tratar bem, mas devemos nos adorar e ir tão longe a ponto de deixar de servir o próximo em nome do nosso próprio bem estar, o que vai totalmente contra o que Jesus nos ensina (Marcos 10:43-45). Mais expressiva que essa, porém, é a teologia da libertação, que pega a verdade de que cristãos devem se importar com a, infelizmente verdadeira, desigualdade social e a transforma em uma luta de opressores e oprimidos, tirando Deus totalmente para fora da equação e praticando a caridade como forma de remissão do passado e não mais como um meio de evangelização.
Apesar de tudo isso, alguns ainda argumentam dizendo que o diabo não pode dizer a verdade em hipótese alguma, pois Jesus diz: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.” (João 8:44), e portanto, se é o pai da mentira, não pode dizer a verdade. Mas peguemos os falsos profetas como exemplo: eles são demoníacos pois mentem e por tantos são filhos do adversário (Deuteronômio 18:20-22), muitas vezes porém, eles acertam, às vezes dizem a verdade, atraindo assim muitos para suas mentiras. Outros dizem ainda que uma verdade distorcida é uma mentira, O diabo não pode dizer a verdade pois mesmo quando ele aparentemente diz coisas verdadeiras, elas são distorcidas, e são, portanto, mentiras. No entanto, a tentação de Jesus no deserto é um bom exemplo de que verdades distorcidas podem ser usadas para fins mentirosos, sem deixar de ser verdades incontestáveis. Quando o diabo cita a bíblia, a Palavra de Deus não deixa de ser verdadeira, ela ainda o é, mas está sendo descontextualizada e usada para fins nefastos.
Assim, O diabo pode dizer a verdade, mas ele sempre a fará fora do contexto e de maneira distorcida, pois ele é o pai da mentira e todos os seus intentos são perversos. Vemos isso em diversos contextos mas principalmente na bíblia, na literatura e na igreja contemporânea. É de extrema importância que cristão saibam disso, para que fiquem atentos às verdades distorcidas do adversário, e dessa forma se prepararem para enfrentá-las (Efésios 6:13-16) e não cair nas armadilhas.
Referências
Shakespeare, William. Macbeth. Millôr Fernandes. L & PM, 2008.

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