O gado e o bezerro de ouro
- Mariana Ayres
- Nov 9, 2022
- 4 min read
“Entretanto, não importando onde vivemos, nossa primeira lealdade é ao nosso Rei e ao reino celestial ao qual pertencemos.” - R.C. Sproul
A disputa presidencial brasileira de 2022 foi sem dúvidas uma das mais polarizadas já vistas no país. Antes mesmo do segundo turno ser definido, uma esmagadora maioria dos eleitores já se posicionava em um dos dois lados: Lula (PT - esquerda) ou Bolsonaro (PL - direita). Na verdade, essa polarização já havia a muito começado. Tão cedo quanto três anos antes das eleições, já era possível observar a ruptura que futuramente viria a ser definitiva: os favoráveis e os contrários ao governo, do então presidente, Bolsonaro. Com a suspeita soltura do ex-presidente Lula, figura emblemática e velho conhecido da política brasileira, o grupo da oposição tomou nome e rosto. Como consequência, aqueles que eram favoráveis ao governo, não apenas apoiavam Bolsonaro, mas também eram declarados inimigos de Lula. Uma parcela desses eleitores começou a ver o então presidente como o salvador da pátria, o idolatravam de tal modo que receberam o apelido de “gado”. As tristes evidências de idolatria vão desde defender Bolsonaro como se ele fosse um homem imaculado, até crer que ele foi sobrenaturalmente ungido por Deus para ser o líder na nação, como Moisés e Davi uma vez foram. Apesar de alguns dos apoiadores do presidente não apresentarem esse comportamento, infelizmente esses não chegam a ser maioria. É inegável que em tempos de grande polarização devemos ter uma posição clara e definida, mas isso não deve se transformar em idolatria.
Esse artigo tem o propósito de apresentar três motivos pelos quais verdadeiros cristaõs não devem idolatrar políticos em hipótese alguma: Idolatria é pecado, nosso único e fiel salvador é Jesus Cristo e não devemos depositar nossa esperança em coisas vãs.
Vez após vez coisas óbvias tem que ser repetidas e entendidas por muitos que se esqueceram delas. Tão certo quanto o Sol nascer todo dia na mesma posição, é a verdade irrefutável de que idolatria é pecado. Vemos a idolatria como um dos dez mandamentos e depois, durante toda a Escritura, como comportamento constantemente desaprovado por Deus. Encontramos por inferência bíblica a definição de idolatria: “A idolatria é a substituição do Deus verdadeiro por um falso deus; o que acontece sempre que confiamos, desejamos e obedecemos a qualquer coisa como devemos confiar, desejar e obedecer ao Senhor.” (Fontes, Idolatria do Coração, p.39). Vemos o ser humano idolatrando desde um dos primeiros capítulos da bíblia. Eva comeu o fruto proibido pois o desejou e confiou que ele lhe supriria uma de suas necessidades, o conhecimento. E é essa a herança que recebemos dos primeiros homens: um coração incansavelmente idólatra. Identificar esse pecado é o primeiro passo para se livrar dele.
Para isso há uma única salvação: o Segundo Adão, Jesus Cristo. Tão logo o pecado entrou no mundo, as profecias sobre o Messias, aquele que pisaria na cabeça da serpente, também foram dadas por Deus Pai, que enviou o seu Filho para a remição dos nossos pecados através da sua entrega voluntária na cruz. Um padrão visto nos cristãos que se mostraram idólatras políticos, é desviar a salvação de Cristo, dizendo que ela viria por um homem ainda nessa terra. Aqueles que acreditam nesse grave pecado devem se voltar imediatamente para Cristo e para a única salvação que verdadeiramente importa: a da condenação eterna.
Acreditar que a salvação prometida seria das condenações terrenas não é um fenômeno moderno. Na verdade, sabemos que os judeus contemporâneos de Jesus também criam nisso, achavam que o Messias os livraria do jugo de Roma. Antes disso também lemos o relato dos judeus no livro de Samuel, implorando por um Rei terreno, mais uma vez colocando a esperança da satisfação de suas necessidades em líderes políticos. Ambos eventos se assemelham a história do Bezerro de Ouro: perdendo a esperança na providência divina, os homens buscaram um ídolo terreno para adorar. No final desta e das outras histórias de idolatria, Deus nos mostra que é inútil depositar nossa esperança em coisas vãs, pois Ele sempre derruba o bezerro de ouro.
Esse padrão foi visto em diversos eleitores no decorrer das eleições presidenciais, mas mesmo com a triste evidência, muitos ainda acreditam não ter havido idolatria política para nenhum lado. Dizem que se posicionar politicamente não é idolatria, especialmente porque estão lutando e defendendo ideias, e não políticos per se. Essa é uma opinião extremamente otimista e meia verdadeira. Realmente, a idolatria a políticos é algo que poucos cristãos fazem ou fizeram, mas mesmo eles não estão imunes aos efeitos do pecado. Devemos lembrar que também é possível idolatrar ideias, mesmo que se posicionar a favor delas não seja errado. Para ter certeza absoluta de que nosso coração não idolatra um indivíduo, pergunte-se: se ele fosse contra algo que Deus defende, eu tentaria dar uma desculpa para a atitude ou iria criticá-lo como cabe a um cristão? Se você acha que o candidato ou ideal que você defende nunca chegaria a esse ponto, você pode estar em idolatria, já que único homem que obedeceu os mandamentos divinos em todas as situações foi nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda dizem que não é errado achar que o país melhorará com determinado presidente, já que o que ele quer implementar é indiscutivelmente bom. Política não é algo simples, a vitória de um presidente com boas propostas não significa melhora instantânea, ou até mesmo melhora alguma. Não devemos colocar nossas esperanças de uma boa vida em coisas terrenas e materiais, pois apenas no céu seremos completos. Os cristãos devem constantemente se lembrar que somos forasteiros nesse mundo, e apesar de não serem todos, muitos estão abrindo mãos de verdades poderosíssimas do evangelho e depositando toda sua confiança no bezerro de ouro.
Assim, fica claro que cristãos verdadeiros não devem idolatrar políticos, pois a idolatria é um pecado gravíssimo, que nesse caso, desvia a salvação do nosso Senhor para colocar todas as esperanças em coisas passageiras. É importante que todos os cristãos verdadeiros que passam por momentos de polarização política, estejam atentos ao coração idólatra, tendo em mente que só teremos um líder digno da nossa esperança e adoração quando estivermos com Cristo no céu, diante do trono celestial de Deus.
Referências
Fontes, Filipe. Idolatria do coração. Editora 371, 2019.
Ferreira, Franklin. Contra a idolatria do Estado: o papel cristão na política. Editora Vida Nova, 2016.
Sandlin, P. Andrew. Cristianismo público: evangelho e lei. Editora Monergismo, 2017.
Sproul, R. C. Qual é a relação entre igreja e Estado? - Série questões cruciais N° 18. Edtra Fiel, 2014.
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