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Brutus e a submissão ao governo

  • Writer: Mariana Ayres
    Mariana Ayres
  • Jun 3, 2022
  • 5 min read
“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação.” Romanos 13.1-2

Uma das peças mais conhecidas de Shakespeare é Julius Ceasar. Nela, voltamos a 48a.C, logo após César voltar vitorioso de sua empreitada contra Pompei, um aclamado governante de Roma. Mas com a vitória de César, a lealdade dos cidadãos romanos é unanimemente colocada nele, eles vão tão longe em sua adoração pelo governante a ponto de decidirem coroá-lo imperador, acabando de vez com a república romana. Mas esse não é o foco da peça. Somos apresentados a Cássio, um dos principais conspiradores em Roma. A conspiração em questão, visa atentar contra a vida de César e é composta por alguns de seus próprios soldados e amigos próximos. Mas para terem sucesso nessa missão, eles julgam que a ajuda de Brutus, o favorito de César, seja necessária e assim iniciam a tentativa de recrutá-lo para a conspiração. Apesar de todos os que leram a peça concordarem que César era, muito provavelmente, um tirano, há debate em se Brutus deveria, ou não, ter aceitado participar da conspiração. Na peça, Brutus acaba sendo capturado pelas belas palavras dos conspiradores, se juntando a eles e participando da missão de matar César. Mas existem três motivos pelo quais Brutus não deveria ter aceito participar da conspiração: A conspiração era movida por valores egoistas, Brutus foi corrompido durante o curto periodo de compartilhamento de ideais e assassinato nunca é a melhor opção.

Fica claro desde o início que as motivações dos conspiradores são extremamente pessoas. Apesar de o bem de Roma ter sido usado como subterfúgio, ele não era o motivo principal para o planejamento do assassinato de César. Em várias passagens os membros da conspiração deixam claro quais eram seus interesses primários:

Cássio- E esse homem agora está transformado em um deus, e Cássio é uma criatura miserável e deve fazer mesuras enquanto César se muito dirige-lhe comprimento num casual gesto de cabeça.” (Ato 1.2)
Metélus- Caio Ligário mal suporta avistar César, que o censurou por falar bem de Pompei. Pergunto se nenhum dos senhores pensou nele.” (Ato 2.1)

Em momento algum eles pensaram nos romanos, que aclamavam e amavam César. No dia que este voltou vitorioso da empreitada todos o louváram, quando ele recusou a coroa três vezes todos admiraram sua alma e por fim, após seu assassinato todos ficaram ao lado dos fieis a César.

E Brutus costumava fazer parte do grupo fiel a César, antes de ser corrompido pela conspiração. Brutus era totalmente contra a ideia de uma conspiração, dizendo que não havia nele vontade de matar o governante. Mas após Cássio ter utilizado de artimanhas e enganações para convencê-lo de que o povo romano estava a favor disso, ele deixou que a ideia lhe subisse à cabeça, acreditando nas palavras dos infiéis conspiradores quando estes diziam que “você será aclamado como o homem que deu liberdade ao seu país.” (Ato 3.1). No fim, Brutus estava tão corrompido quanto César um dia esteve. Começou a agir como o morto, recebendo visitas de seu espírito e até sendo comparado com ele por pessoas próximas. Brutus acabou tirando sua própria de tão grande tormenta que lhe sucedeu depois de se desviar do caminho acertado.

Mas já era possível saber, antes mesmo de acontecer, que o espírito de César não seria morto junto ao seu corpo, mostrando assim, que assassinato de um líder nunca é a melhor opção para livrar seu povo. O único jeito de acabar com a suposta tirania de César seria obstruindo seus poderes e capacidades de governar, matando seu espírito tirânico de uma forma efetiva, mas isso não foi feito e nem sequer cogitado. Invés disso escolheram o caminho onde apenas o corpo morria e o espírito permaneceria. O próprio Brutos menciona que “no espírito dos homens não há sangue” (Ato 2.1), mas logo segue para tirar o sangue de César, provando que os conspiradores não entendiam nada de como alcançar seus supostos objetivos, que eram, afinal de contas, trazer paz e liberdade a Roma, chegando assim, quase que no resultado oposto a esse.

Mas alguns ainda acreditam que Brutus tomou a decisão certa ao aceitar participar da conspiração, pois isso de fato ajudou os romanos; dizem que o povo era extremamente volátil e vulnerável, não seria justo terem um líder tirânico como César e a conspiração apenas se livrou do mal que eles não sabiam estar afetando eles. Porém, sabemos que o bem-estar dos romanos foi apenas uma mera, e mal lavada, desculpa para a conspiração. Se eles realmente se preocupassem, teriam tentado mudar as cadeiras no senado e trabalhado para diminuir a influência de César sobre o país, por exemplo. Caso as movimentações pacíficas em favor do povo eventualmente levassem a uma guerra ou conflito interno, quem se oposesse à César poderia se defender dos atentados de forma violenta, da mesma forma aconteceu na revolução americana, que começou pacífica, bem intencionada e dentro das leis, mas eventualmente se transformou em uma guerra pela falta de bondade e consideraçõa do império britânico. Mas começar um guerra sem antes tentar o lado pacífico, e mais alarmantemente que isso, ter o assassinato de um outro ser humano como plano principal, foi onde eles erraram. Mesmo assim, algumas pessoas ainda defendem a “guerra justificada”, alegando que essa era uma delas. Porém, a teoria da guerra justificada é falha quando não existe nenhuma autoridade absoluta para definir o que é mau e o que é bom, pois sem esses dois termos bem definidos, é impossível fazer uma guerra justa de bem contra mal. Sendo assim, para saber se uma guerra é justa ou não, temos que trazer uma autoridade para dentro da equação. Para os cristãos, a autoridade moral é respeitada e enxergada na bíblia, a palavra que veio diretamente do Senhor, assim, algumas guerras são justificadas, como por exemplo as guerras promovidas, principalmente, por Moisés e Josué na conquista da Terra prometida. Mas no caso de Brutus, o Senhor já nos alertou através do apóstolo Paulo em romanos 13.1-2 e do apóstolo Pedro em 1 Pedro 2.13-17:

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei.”

Se as intenções dos conspiradores realmente fossem acabar com a tirania que existia na relação de governante e população no contexto do império romano, existiam diversas outras maneiras pelas quais eles conseguiriam alcançar isso, sem cair na imoralidade e má conduta. Um exemplo de boa conduta em tempos de liderança tirânica é a do pastor alemão Dietrich Bonhoeffer, que durante a guerra mundial, se submeteu ao governo alemão, mas ao mesmo tempo se tornou o maior crítico dele, promovendo protestos pacíficos, orações em funções das vítima, ajudando judeus a escaparem para outros países e trabalhando para o bem da população sem desobedecer ao mandado de Deus de respeitar as autoridades.

Assim, vemos que Brutus não deveria ter entrado para a conspiração. Os conspiradores eram motivados por valores egoistas e pessoais, que corromperam também a Brutus, fazendo-o escolher a pior solução, o assassinato. Essa reflexão é importante para todos os que estão indignados com seus atuais governos e cogitam uma possível revolução. Porque nenhuma revolução tem motivações altruístas, sempre acabam com sua moralidade e existem outras, e melhores, formas de se opor ao mal sem desrespeitar um mandamento de Deus, que é o de honra aos líderes da nação.

Referências

Moore, Phill. “When Should a Christian Join the Revolution?” What You Think Matters, 30 June 2011, https://thinktheology.co.uk/blog/article/when-should-a-christian-join-the-revolution.


Perry, Bob “You say you want a revolution?” Christian Research Institute, 20 Feb 2020, https://www.equip.org/article/say-want-revolution/.


Shakespeare, William. Julius Caesar. Edited by Roma Gill, 4th ed., Oxford University Press, 2001.


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