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Crítica do livro Os Descobridores

  • Writer: Mariana Ayres
    Mariana Ayres
  • Jul 5, 2023
  • 5 min read

Somos nós todos Descobridores? Daniel Boorstin diria que sim. Nascido em 1914 nos Estados Unidos, Daniel era judeu, filho de advogado e estudou direito em Harvard em 1934, completando seus estudos mais tarde na universidade de Oxford. Em 1938 se filiou a um partido comunista, e ao sair, entregou o nome de vários membros para a polícia. Foi professor de história na Universidade de Chicago de 1944 a 1969, diretor do Museu de História e Tecnologia de Washington de 1969 a 1973 e bibliotecário chefe da Biblioteca do Congresso Americano de 1975 a 1987. Escreveu mais de 6 obras sobre história, principalmente a americana, e ganhou prémios de renome por alguns deles, como o Pulitzer em 1974. Em um artigo no Washington Post, Boorstin admite que querer colocar mais de 6 mil anos de história em um livro com menos de 800 páginas pode parecer arrogante. Mas ele alega: “Eu escrevo para a minha própria satisfação. Então, acho que você poderia dizer que se qualquer esforço para compreender o mundo é arrogante…” Ele também o é, podemos completar. Porém isso não deve nos afastar de sua obra, Os Descobridores, no qual a tese principal nos transforma em personagens da história mundial: Somos todos descobridores. Boorstin concentra seus esforços em demonstrar tão somente as descobertas da humanidade, a vontade do homem em descobrir e como essas descobertas conduziram a história.

Durante toda a obra, caminhamos pelas principais áreas de interesse da curiosidade humana e suas mais importantes descobertas no campo. Somos apresentados a muitos “Colombos”, cujas trajetórias individuais somaram na vasta gama de novas descobertas do mundo. Os relatos de cada personagem e suas aventuras são bem descritos e interessantes de serem lidos, pois o foco quase nunca é no convencional, como ele mesmo disse: “De certa forma, as coisas mais importantes são desnecessárias — bons poemas, por exemplo. O mais característico sobre a humanidade é a necessidade de descobrir o desnecessário.” Dessa forma, o livro segue em sua completude a proposta inicial de mostrar a natureza humana que carrega em si a necessidade de descobrir coisas desnecessárias, ou as vezes, revolucionariamente importantes.

Mas como o The New York Times coloca: "Ele tende a escrever sobre o que o interessa e omite o que não lhe é interessante.” Boorstin leva poucasopinões apostas a sua tese em conta. Porém, devemos considerar que o propósito do livro nunca foi convencer multidões: “Eu não escrevo por dinheiro ou porque espero reconhecimento ou para manter meu emprego. Eu escrevo porque amo fazer isso e não cosigo me segurar.” Ainda assim os argumentos do livro são descritos de forma clara e contundentes. Por exemplo, quando argumenta sobre o motivo do protagonismo judaico-cristão nas decoberta por milênios, ele diz: “ O maior obstáculo para a desoberta não é a ignorancia – é, na verdade, a ilusão do conecimento.” As jornadas de cada povo ou indivíduo servem de prova para esse argumento. Vemos isso na descrição do povo Chinês, que por sua religião e cultura tinham como certo a centralidade da China e soberania suprema de sua nação, não sendo assim instigados a explorar o mundo a fora tanto quanto os cristãos.

Muitos críticos, porém, apontam a falta de pesquisa de Boorstin em suas obras históricas. O próprio revisor da edição brasileira de 1989 coloca notas de rodapê essenciais relatando os diversos erros, conclusões precipitadas, omissões e entre outras gafes de Boorstin. O Washington Post diz: “Fatos errados, pouca pesquisa, ignorância literária, conclusões incorretas, viés a favor da cultura ocidental e exclusão de outras culturas, tendência de ignorar o lado negativo, falta de atribuição e uma revisão visivelmente mal-feita.” permeiam a obra. Entretanto, eles são os primeiro a admitirem a surpreendente criatividade do autor: “Aplaudimos o seu talento de colocar informações familiares de uma forma nunca antes vista — o que normalmente insitiga novas ideias. O livro é dividido em quatro outros ‘livros’: Tempo, A Terra e os Oceanos, Natureza e Sociedade. Ele segue seu herói — o homem descobridor — ao desvendar os mistérios de cada um.” E sua propósta para esta obra realmente foge do escopo dos livros de história convencionais, que seguem uma ordem cronológica de eventos. Em Os Descobridores, Boorstin segue a ordem cronológica das descobertas, pois as mais complexas não teriam sido possíveis sem as mais simples. Nada original, por outro lado, é o seu claro viés, presente em qualquer obra do gênero. É um verdadeiro desafio relatar a história sem conclusões tendenciosas, e Boorstin também não tem sucesso nisso. O capítulo 14, especialmente, foi duramente criticado por perpetuar o equívoco de achar que os cristãos na idade média acreditavam que a terra era plana: "De fato," escreve Louise Bishop, professora na Universidade de Oregon, "essencialmente todo pensador e escritor dos mil anos de Idade Média afirmaram a forma esférica da Terra.”

Os pontos baixos da obra se agravam quando analisamos a tradução e revisão. Vejamos o capítulo 33 por exemplo. Algumas decisões podem ser entendidas quando olhamos para o português de Portugal, como o “c” mudo em “facto” e a expressão “mais menor”, inesistente no português brasileiro. Porém, não há explicação para evidentes erros: “em Espanha”, “estebe” e “enteender”, que não constam em nehuma gramática ou dicionário, neste século ou do passado, da língua portuguesa. Tais erros evidenciam a falta que uma ferramente como o Word — inexistente em 1989 — faz na revisão de um livro. Além disso, mostra a escassez de zelo na tradução, e demais processos pré–editoriais, da obra. Para muitos, esses adendos podem soar como meras tecnicalidades, poréms ceramente foram o suficiente para formar minha opinião de que a 1 edição da versão brasileira de 1989 não vale a pena ser adquirida. Mas não podemos deixar que isso nos afaste da versão original, que é, no geral, uma leitura recomendada para assíduos apreciadores da história humana.

Boorstin faz um ótimo trabalho em demonstrar a quais descobertas a natureza curiosa do homem o levou, e quais obstáculos impediram outros de chegarem nas mesmas conclusões. Saímos desse livro entendendo claramente uma marcante verdade sobre a humanidade: Só são grandes aqueles que sobem em ombros de gigantes. As Américas não teriam sido descobertas sem a invenção da bússula e esta não existiria sem a observação cuidadosa do céu. Dessa forma, é impossível descobrir algo novo sem antes ter conhecimento do que já foi descoberto, e Os Descobridores é um ótimo atalho para cumprir essa tarefa. Apesar dos diversos erros de tradução e revisão e do viés do autor, a leitura é prazerosa e nova mesmo para os mais conhecedores da história, devido a organização diferente da obra. Portanto, julgo ser um livro que vale a pena conferir, talvez não como a única fonte de estudo, mas certamente como um dos volume importantes de uma notável coleção. Como o Washington Post menciona, ler um dos livros de Boorstin é como ser puxado pela mão em meio aos corredores de um grande museu por um senhor de 69 anos com espírito de 9: ele falará entusiasticamente sobre diversos artefatos, sem ordem aparente, e te contará toda a história mundial usando apenas aquilo que mais o impressiona.


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