Conto #1
- Mariana Ayres
- Jun 3, 2022
- 7 min read
O ponto de partida desse conto é a frase “how many time had you said, 'if i just looked a little different, i'd be drowning in love?'” x
Eu amo. Amo ouvir o som da chuva enquanto durmo. Amo observar uma vela queimar. Amo assistir os mais novos filmes no cinema. Amo compartilhar histórias. Amo conhecer novas músicas. Amo minha mãe, minha melhor amiga, meu sobrinho, a senhora da padaria, a vizinha da frente, o meu cantor favorito. Eu amo, amo muito, amo de várias maneiras e amo diversas coisas.
Mas existe uma diferença entre amar algo ou alguém e ser apaixonado por algo ou alguém. Eu não sou apaixonada por minha melhor amiga. Nós nos conhecemos desde crianças, não existe nada que eu não confia a ela, somos, muitas vezes, como a mesma pessoa, duas versões humanoides de uma mesma mente. E eu a amo. Mas não sou apaixonada por ela.
A paixão é diferente do amor porque a paixão é tão avassaladora que nos faz esquecer que apenas amar ainda é possível. Faz o ‘amar’ parecer apenas ‘gostar’. É mais profundo, mais intenso, mais. Eu sei porque já me apaixonei, diversas vezes. E a única sensação superior a paixão é a paixão mútua. Quando duas pessoas se encontram em perdida paixão uma pela outra. Não que eu já tenha experimentado desse delicioso sentimento compartilhado. Apenas o senti unilateralmente.
Me apaixonei pela primeira vez por um amigo. Não sei exatamente como nem quando começou, mas quando menos percebi esse sentimento já era uma criança de três anos de idade. Eu a alimentei durante seus primeiros dias com mensagens online, a vi engatinhar quando começamos a sair a sós, a ensinei a andar na medida que ia confiando mais segredos a ele e cada palavra que eu a ouvia balbuciava era um devaneio de nosso futuro juntos. Mas eu a criei sozinha, ele não sabia da existência dela. Se soubesse, ele não teria iniciado aquela conversa:
“Esse é o último verão antes da faculdade, tem que ser o melhor de todos.”
“Ah sim, vai ser o mais terrível de todos. Ir pra faculdade é assustador.”
“Verdade. Por isso vou arrumar uma namorada pra me distrair.” No momento que essas palavras deixaram seus lábios, os lábios que já estavam marcados por trás das minhas pálpebras de tanto que olhei pra eles, meu fraco coração bombeou sangue diretamente para meu rosto como nunca antes havia feito.
“E quem você tem em mente?”
Porque se soubesse, ele não teria me apresentado aquela garota: alta, morena, sorriso bonito, pele perfeita, voz afinada e apenas passarinhos voando a sua volta poderiam melhorar ainda mais sua presença e amabilidade. Se soubesse, ele não teria a levado naquele lugar: a sorveteria onde íamos almoçar todos os dias na hora do almoço, sozinhos, porque nós costumávamos preferir a companhia um do outro, e apenas isso.
Mas com o tempo estar na companhia dele não significava mais uma mesa para dois. Sentávamos em uma para quatro, ele, ela, eu e uma cadeira vazia. Pelo menos estava vazia nos olhares das pessoas mais alegres. Na realidade, ao meu lado sentava a criança, a mesma que com tanta dedicação eu criei, e agora via chorar, espernear, agoniar, morrer aos poucos. E mesmo sabendo que deveria matá-la, não consegui me levar a fazê-lo. Mesmo que sufocá-la fosse fazer com que sua dor acabasse, eu não o fiz. Mesmo que empunha-la fosse acabar com a minha dor, eu não o fiz. Não fiz pois sabia que seu último suspiro de vida significaria meu primeiro passo para longe dele, e eu não queria. Mas a morte era inevitável.
Mais três paixões vieram depois dessa. Uma delas durante a faculdade. Que não durou muito já que ele, um rapaz que vivia andando de skate em frente ao meu apartamento e era dois anos mais velho do que eu, só queria sexo. Eu me apaixonei por ele olhando-o pela janela, ouvindo o som de suas manobras, imaginando o som de sua voz, pensando no que falaria, como diria, se conseguiria trocar uma palavra com ele. Me apaixonei sem saber seu nome, sua idade, seus gostos ou desejos. E ele, mesmo depois de trocarmos olhares, palavras, números, risadas, momentos, não se apaixonou por mim. Mesmo sabendo meu sobrenome, minhas opiniões, o som da minha voz ao me deitar e o que eu mais gostava na cama, não se apaixonou por mim. Talvez ele não tenha retribuído o sentimento porque nunca chegou a saber qual era o som da minha voz ao acordar, como meu cabelo ficava bagunçado pelas manhãs ou o que eu mais gostava de comer na primeira refeição do dia.
Ou talvez a intenção dele nunca tenha sido retribuir a paixão, talvez ele estivesse com medo e por isso fugiu, talvez ele estava atrasado para algum compromisso importante e por isso saiu antes de eu acordar, talvez ele tenha perdido o celular e por isso não respondia minhas mensagens, talvez… Mas ele nunca mais voltou. Nos meses seguintes o tempo dedicado a ouví-lo e imaginá-lo foi substituído pelo alto barulho de todas as minhas suposições e minha mente foi inundada por toda a culpa de ter entregado algo tão valioso para ele antes de ser avisada que não haveria devolução. As suposições acabaram quando busquei seu nome em uma rede social, ele tinha uma namorada. Uma bonita, magra e rebelde namorada. Mas a culpa não foi embora até eu prometer a mim mesma que nunca mais confiaria algo tão importante como meu corpo para alguém a quem eu não confiasse também na minha vida.
E felizmente fui fiel à minha palavra. Mas entreguei meu coração mais algumas vezes, talvez por não julgá-lo tão importante quanto meu corpo. Mas aprendi o valor de guardá-lo na mais dolorosa das desilusões. Um relacionamento que durou o mesmo tempo que a vida de uma abelha. E nós realmente apreciamos abelhas, ele a rainha e eu uma operária.
Mas antes disso ainda tive uma paixonite. Não chamo de paixão pois nunca me permiti desenvolver tal sentimento. Ele era meu professor e era também casado. Sua esposa, cinco anos mais jovem que ele, era uma verdadeira modelo. Digo isso pois ela realmente foi o modelo que eu segui por algum tempo. Ela usava maquiagem, comecei a usar, ela cozinhava, comecei a cozinhar, ela caminhava todas as manhãs, comecei a caminhar. Eu a copiava como nunca antes copiei outro ser humano. Se ela conseguiu ele agindo assim, eu também conseguiria alguém imitando-a.
E estava certa. Pela primeira vez alguém se interessou por mim. Não pela amizade, não pelo sexo, mas por mim. Ou a versão melhorada de mim que usava maquiagem, cozinhava e caminhava ao ar matutino. Quando começamos a namorar eu não podia estar mais feliz, um homem se apaixonara por mim da mesma forma que eu me apaixonei por ele. Parei de me maquiar, cozinhar e caminhar, e assim dolorosamente descobri que ele não havia se apaixonado por mim, e sim por uma versão temporária de mim. Mas eu queria que nosso relacionamento, meu primeiro relacionamento, desse certo. Por um ano vivi como para satisfazer os desejos, vontades e expectativas dele. Voltei a acreditar que ele era apaixonado por mim. Eu gostava de acreditar nisso, eu amava acreditar nisso. Minha sede por paixão era tão grande que, de repente, até mesmo a mentira era apetitosa.
Descobri a primeira traição com três meses de namoro. Ele chorou, disse que estava arrependido e pediu perdão por ter estragado nosso relacionamento em tão pouco tempo. Eu também chorei, também disse estar arrependida e também pedi perdão. Lembro de, em meio as lágrimas que transbordavam pelos meus olhos, olhar para a mulher, loira, curvilínea, magnífica, linda. Lembro de buscar, em meio ao mar agitado e tempestuoso que era minha mente, as palavras mais adequadas para suplicar: “Por favor fique comigo! Eu prometo esquecer disso se você prometer se manter apaixonado por mim”.
Ele aceitou. Mas eu quebrei a promessa. Não havia um dia que eu não me lembrasse. Na verdade, ficou difícil de esquecer depois da terceira vez, porque ele também quebrou a promessa. Elas eram tudo que eu não era, mas tudo o que eu sempre quis ser. E ele, não era de todo mau, pois me impediu de perdoá-lo na quarta vez, terminou comigo antes que eu suplicasse. Eu ainda estava apaixonada, e dessa vez também estava desesperançosa.
Decidi não entregar o coração tão facilmente. Pois ele já parecia mais com um quebra cabeça do que qualquer outra coisa, as marcas de união entre as peças dolorosamente visíveis, o claro sinal de que um dia ele havia sido quebrado. E foi, mais de uma vez. Mas enquanto consegui recomendá-lo, mesmo que precariamente, ainda faltava uma peça central.
Por que ninguém se apaixona por mim?
Madrugadas virando de um lado para o outro na cama, como uma porta na dobradiça, me obrigavam a pensar em uma resposta. Mesmo que ela estivesse sentada na ponta do meu nariz, onde os olhos enxergam mas decidem conscientemente ignorar, tristemente esperando que eu a notasse. Até que finalmente escolhi contemplá-la.
A questão é que a primeira coisa que eu reparei em todas as minhas paixões foi a beleza. A penetrante observação do objeto de desejo era o primeiro, e mais longo, passo que me levava diretamente para a beira do precipício. Todo o resto vinha depois. A primeira conversa me empurrava os milimitros restantes e ao abrir os olhos já me encontrava em queda.
Mas se não há primeiro passo, se não há desejo, se não há beleza, então não há queda.
Lembrei com angústia de todas as mulheres mais bonitas que eu que ocuparam o meu lugar em tantas ocasiões. Por três anos ele não me viu, mas em alguns dias enxergou a beleza dela. Ele pode até ter visto beleza em mim, mas não foi suficiente para fazê-lo ficar até o nascer do Sol. Quando finalmente fiquei tão bonita quanto uma mulher desejável consegui meu primeiro relacionamento, mas ele preferia mulheres melhores, mais magras, mais bem vestidas, mais naturalmente belas ou artificialmente belas, mas belas de qualquer forma.
Se eu fosse mais bonita ele teria me visto antes de vê-la? Ele teria ficado mais uma noite? Eu não teria que me modificar? Ele teria sido fiel?
Se eu fosse mais bonita, me encontraria perdida na avassaladora paixão mútua?


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