Como escrever um texto persuasivo desde o começo
- Mariana Ayres
- May 2, 2022
- 9 min read
Com os cinco cânones da retórica, nós temos o infalível método de como ter uma boa retórica. O primeiro desses cinco cânones é o da invenção, do qual falaremos em maior detalhe. Dentro do cânones da invenção existem cinco tópicos comuns:
Definição
Comparação
Relação
Circunstância
Testemunho
Nós trabalhamos com esses cânones e tópicos comuns dentro do método clássico de escrita, existem outros, mas é esse que usaremos por enquanto.
Para a execução de um bom texto, precisamos seguir algumas regras, ou recomendações, sobre a ordem dos processos de escrita. Primeiramente, devemos explorar um assunto para saber escrever sobre ele. No Classical Conversations cada nível do Challenge tem um tema central que é discutido durante todo o ano, é com base nesse tema que são escolhidos os livros que serão lidos pelos alunos. A fase de “exploração” é aquela em que leremos livros, textos, relatórios ou artigos sobre um mesmo assunto, igual fazemos no currículo.
O segundo passo é coletar evidência. Isso é feito durante a leitura do livro, o jeito certo de ler um livro a fim de escrever sobre ele é marcando, anotando, grifando e “devorando” o livro. Podemos usar um código de cores com marcadores, um caderno à parte, as margens dos livros, post-its ou qualquer outro meio que irá te ajudar. O que deve ser marcado ou destacado é qualquer coisa que você achar importante, desde nome de personagens até passagens potencialmente desimportantes.
A verdadeira diversão começa na hora de encontrar um foco. Toda a leitura e anotações servem para você saber o que fazer nessa parte. Aqui nós iremos definir sobre o que escrever. No caso de um texto persuasivo, temos que achar um problema, ou tese, como é formalmente chamado. Encontrar uma tese começa sempre com uma pergunta, “deveria joãozinho responder a professora?”, que evoluí para a sua tese final. Portanto, o primeiro passo para encontrar um foco é pensar em uma pergunta. O segundo passo já é conhecido por alguns e possivelmente odiado por muitos, a tabela ANI.
A tabela ANI é o mais efetivo meio de definir sua tese. Lembrando que a ordem é, primeiro fazer uma pergunta e só depois fazer a tabela. Essa tabela é dividida em três colunas, afirmativo, negativo e interessante. Ela serve para respondermos a pergunta pré-escolhida e coletar motivos. A coluna afirmativa é a resposta para a pergunta no sentido afirmativo, “sim, Joãozinho deveria responder a professora”, enquanto a coluna do negativo é o contrário desta, “não, Joãozinho não deveria responder a professora”. Mas apenas isso não é suficiente, para preencher a tabela precisaremos fazer ainda uma outra pergunta, “por que?”. A tabela ANI então, será preenchida com “por quês”, ou motivos, para a coluna afirmativa ser a certa ou a negativa ser a correta.
Afirmativo (por que a coluna afirmativa está certa?)
Negativo (por que a coluna negativa está certa?)
Interessante
A coluna do interessante é a única que poderá estar vazia no final. A afirmativa e a negativa deverão necessariamente ter entre dez a trinta itens, apesar de que mais do que trinta itens também seria aceitável. Às vezes é um pouco difícil pensar em motivos sozinho, e foi pensando nisso que foram desenvolvidas uma série de perguntas para ajudar a preencher a tabela. Esse passo é claramente apenas a resposta de um monte de perguntas, mas é um dos mais importantes para a escrita de um texto.
Para essas perguntas usaremos os cinco tópicos comuns da invenção que falamos anteriormente. Definição, comparação, relação, circunstância e testemunha, esses são os cinco tópicos. A definição trata sobre o que os personagens ou termos são, se sua pergunta tem personagens então defina esses personagens, suas personalidades, características, família e etc. Se sua pergunta tem termos, como por exemplo “o porte de armas deveria ser permitito?”, então defina os termos ou palavras. Na comparação vamos comparar dois personagens, dois temas ou duas situações, podem ser personagens de livros diferentes, podem ser um da vida real e um fictício, podem ser situações hipotéticas ou qualquer coisa que possa ter uma comparação compatível.
A relação lida com causa e efeito, qual foi a reação que causou a pergunta a ser feita ou quais reações do personagem causou algum problema dentro da história? A circunstância é onde os personagens estavam, quem eles influenciam e o que outros personagens ou temas relacionados fizeram. Por último, a testemunha é o que outras pessoas dizem sobre os personagens, temas ou termos, essas “outras pessoas” podem ser pessoas influentes no assunto, a bíblia ou até mesmo seus pais. Sumarizando tudo dito, as perguntas que ajudarão a tabela a ser preenchida são:
X é o personagem ou termo principal da pergunta, mas também pode ser alguém envolvido secundariamente no problema.
Y é qualquer pessoa, ou coisa, envolvida no problema ou fora dele.
Perguntas de definição
Quem ou o que é X?
Que coisa é X?
Perguntas de comparação:
Como X é igual a Y?
Como X é diferente de Y?
O que ambos são/estão?
O que ambos têm?
Em que X é melhor que Y?
Em que X é pior que Y?
Perguntas de relação
O que levou a situação em que uma decisão precisou ser tomada?
O que segue a decisão?
Perguntas de circunstância
O que estava no mesmo lugar que o seu problema ou situação?
O que estava acontecendo com outros personagens no momento em que X estava tomando a decisão?
Perguntas de testemunha
O que os outros personagens dizem sobre as ações de X?
O que outras pessoas dizem sobre o problema?
Quando a tabela estiver completa, com preferencialmente trinta itens em cada coluna, vamos passar para o terceiro passo na parte de encontrar um foco, decidir sobre o que escrever. Você terá trinta itens na afirmativa e outros trinta na negativa, sua tarefa agora é escolher qual dos dois será sua tese.
Com isso finalizado, iremos iniciar a seleção. De todos os itens na coluna que escolhemos para ser nossa tese, veremos quais são os melhores, quais podem ser agrupados e quais são os mais concisos. No método do Classical Conversations, nós aprendemos a primeiramente agrupar itens parecidos, para isso podemos usar sistema de cores ou de símbolos. Podemos, por exemplo, agrupar motivos semelhantes no grupo amarelo, ou no grupo ponto de exclamação. Não há nenhuma regra fixa sobre isso, apenas agrupe-os da forma que parecer melhor para o seu texto, mas lembre-se de que eles devem ser pelo menos minimamente relacionados e ter coisas em comum. Depois de agrupá-los vamos ver qual grupo é o mais conciso e em qual ordem devemos apresentá-los. É bom que os argumentos mais fortes sejam os primeiros para dar uma boa base e suporte inicial para o seu texto.
Depois de organizar nossos argumentos, iremos organizar nosso texto. Faremos isso com a ajuda de um outline, que é uma sequência específica que nos ajuda a executar um texto com facilidade. É o outline que verdadeiramente diferencia um texto do outro, todos os passos anteriores poderiam ser usados para qualquer redação, mas esse outline é específico para a escrita persuasiva conhecida como “cinco paragrafos”. Existem outros jeitos de escrever textos persuasivos como a “fórmula ABC’, mas no Classical Conversations trabalhamos apenas com um tipo de outline para esse tipo de texto.
Tudo que tem asterisco (*) do lado precisa ser substituído, os itens que não tem asterisco (*) são apenas tópicos estruturais e não aparecem no texto.
Introdução
Exordium*
Narratio
Situação*
Ação*
Divisão
Concordâncias*
Discordâncias
Tese*
Contra-tese*
Distribuição
Tese*
Enumeração*
Exposição
Prova 1*
Prova 2*
Prova 3*
Provas
Prova 1*
Sub-prova 1*
Sub-prova 2*
Sub-prova 3*
Prova 2*
Sub-prova 1*
Sub-prova 2*
Sub-prova 3*
Prova 3*
Sub-prova 1*
Sub-prova 2*
Sub-prova 3*
Refutação
Contra-tese*
Contra-prova 1*
Sumário da contra-prova 1*
Inadequação da contra-prova 1*
Contra-prova 2*
Sumário da contra-prova 2*
Inadequação da contra-prova 2*
Sumário da refutação*
Conclusão
Tese*
Sumário de provas
Prova 1*
Prova 2*
Prova 3*
Amplificação
Pra quem isso importa*
Por que isso importa*
Exordium: O exordium é a primeira frase do texto, é recomendado que ela seja uma pergunta, uma citação ou um desafio, mas o principal é que ela seja chamativa e desperte a curiosidade do leitor.
Narratio: Nem sempre o público que estará lendo o texto vai conhecer sobre o tópico escolhido, usamos o narratio para situar o leitor de forma rápida para que ele saiba o básico e consiga compreender o que será discutido. Fazemos isso primeiramente explicando a situação no geral e depois, se necessário, detalhamos as ações de alguns personagens essenciais.
Divisão: Também com a intenção de situar melhor o leitor no tópico, usamos a divisão para mostrar onde está a discussão. Depois de apresentar a situação no narratio, mostramos alguma coisa que todos concordam sobre o assunto e logo depois um em que a discussão.
Diferença entre “concordância” e “discordância” na divisão: Na concordância falamos algo que é de comum acordo, pode ser algo óbvio ou até mesmo um ponto central para sua tese, mas deve ser algo que tenha relação com o tópico e que todos concordem. Na discordância apresentamos o motivo da discussão, podem até existir outras divergências, mas aqui é obrigatório que o ponto de discordância seja a sua tese.
Tese: A tese é o que você irá defender, sua ideia principal. Ela deve sempre ser bem objetiva e mantida durante todo o texto.
Contra-tese: É o contrário da tese. Se minha tese for “todos deveriam se vestir da mesma cor”, a contra tese será “todos deveriam se vestir de cores diferentes”.
Enumeração: É simplesmente o número de provas que serão apresentadas. Nesse outline trabalhamos com três provas, mas o número pode variar para baixo ou para cima.
Exposição: A exposição é o primeiro contato do leitor com as provas. Todas as provas principais devem ser apresentadas nessa hora, uma atrás da outra sem a necessidade de muita explicação.
Provas: São os motivos pelos quais você está defendendo sua tese. Poderíamos também chamá-los de argumentos, com eles tentamos explicar nosso ponto de vista e convencer os leitores a concordarem conosco.
Sub-provas: Detalham, explicam ou aprofundam as provas. Nesse outline trabalhamos com três sub-provas para cada prova, mas o número pode variar.
Diferença entre “provas” e “sub-provas”: As provas devem ser objetivas e rápidas, enquanto as sub-provas podem discorrer mais desde que sejam diretamente relacionadas com as provas. “O número de analfabetos funcionais no Brasil aumentou" pode ser uma prova para a tese “a educação brasileira não é eficaz”, nesse caso possíveis sub-provas seriam dados de que isso é verdade, explicações de termos ou motivos pelos quais isso aconteceu.
Refutação: O tópico de refutação serve para dar ao leitor uma visão dos argumentos opostos e ter a oportunidade de refutá-los.
Contra-prova: Um argumento utilizado pelo lado contrário para suportar a tese deles.
Diferença entre “contra-tese” e “contra-prova”: A contra tese deve ser o exato oposto da tese, enquanto a contra-prova é apenas um argumento utilizado pelo outro lado que não tem que ser relacionado com nenhum argumento seu.
Sumário da contra-prova: Nada mais é do que as sub-provas das contra-provas. Servem para detalhar, explicar ou aprofundar as provas do lado oposto.
Inadequação da contra-prova: Essa é a chance de mostrar que o argumento utilizado pelo adversário é inválido, ruim ou fraco. Aqui devemos simplesmente explicar porque discordamos dos argumentos utilizados por eles. Podemos usar provas, dados, definições ou qualquer outra coisa.
Sumário da refutação: Uma breve explicação de alguns argumentos utilizados pelo lado contrário e porque eles são ruins. Nessa parte devemos tentar ser o mais objetivos possíveis.
Conclusão: É a repetição da tese e das três provas principais e sucintas que foram discutidas no texto.
Amplificação: Uma rápida explicação de porque esse assunto deve ser debatido. Deve ser escrito para quem esse tópico é importante, pode ser uma pessoa específica ou um grupo de pessoas, e porque essas pessoas se importam com ele.
Nesse outline trabalhamos com um sistema de asterisco, tudo que tem asterisco no lado deve ser substituído na hora de escrever seu texto, tudo que não tem asterisco deve ser ignorado na hora de escrever o texto e só servem para ajudar na estruturação no outline. Isso significa que você pode escrever seu texto em “blocos”, fazendo separadamente cada item com asterisco e juntando-os na hora do primeiro rascunho. Outra forma de executar o texto é olhar o outline durante a escrita e ir fazendo de uma vez só da sequência apresentada.
O próximo passo é também odiado por muitos, escrever rascunhos. Apesar disso, é um passo extremamente necessário e que deve ser feito. Não existe nenhum limite de quantos rascunhos serão necessários, mas no mínimo um deve ser feito. O rascunho é a primeira versão do seu texto, que nunca é perfeito e às vezes nem mesmo aceitável. Mas é uma versão descartável, isto é, podem ser feitas quantas alterações forem necessárias.
A revisão do rascunho também é um passo muito importante. Na revisão você terá que ler a sua primeira versão e cortar parágrafos inúteis, trocar palavras repetidas, tirar palavras desnecessárias, adicionar técnicas de progressão textual e deixar o texto em sua versão final. Algumas técnicas de progressão textual são:
Paralelismo: O paralelismo pode ser arranjar palavras sequenciais que sejam da mesma classe gramatical, mas também estruturas como, não…nem...; por um lado…por outro lado…; quer…quer…; quanto mais….mais…; tanto...quanto…; seja...seja…; isto é…; não só…mas também…;
Antítese: São palavras ou frases contrárias e opostas, um exemplo seria, "eles eram como preto no branco."
Símile: É uma espécie de comparação com outros personagens, histórias ou situações da vida real. Nem toda comparação é símile, mas toda comparação estruturada em uma frase mostrando igualdades de duas coisas de forma objetiva, é uma símile. Por exemplo, "seus cabelos eram escuros como um céu sem estrelas."
Aliteração: Sequência de palavras como o mesmo começo, essa é, na minha opinião, a mais difícil de ser executada com destreza, mas o treino e repetição tornam tudo um pouco mais fácil. Um exemplo de aliteração, feito por mim, é “Voltou à vida de viagens.”
Metáfora: Figuras de linguagem normalmente usadas para comparar.
Assonância: São simplesmente rimas. Temos que tomar cuidado para não usarmos essa técnica sem controle e muitas vezes onde ela não cabe.
Advérbios: O uso de advérbios para modificar ou intensificar o significado de verbos, adjetivos ou outro advérbios é indicado, porém se o advérbio apenas reforça um significado óbvio, é melhor que ele seja cortado.
Sumarizando tudo dito, para a execução de um bom texto devemos seguir alguns passos, explorar um tema, encontrar evidências dentro desse tema, encontrar um foco para a escrita do seu texto, selecionar os melhores argumentos, organizar o texto em um outline, escrever o primeiro rascunho e por fim revisar o rascunho ficando finalmente com sua versão final.

Comments