Vergonha - Conto #2
- Mariana Ayres
- Feb 23, 2023
- 3 min read
Odeio sentir vergonha. Principalmente aquela vergonha paralisante, que me impede de fazer o que eu gosto e então me julga por gostar dessas mesmas coisas. Vergonha do que pensariam se me vissem trabalhando ou estudando; vestindo uma blusa colorida ou andando de um jeito estranho.
Fico pensando, se todos tivessem esta vergonha paralisante, ninguém faria coisa alguma. Não sairíamos de nossas casas e nem mesmo nos levantaríamos de nossas camas, por vergonha. Sobretudo, sentiríamos vergonha de não fazer nada, e, ao mesmo, tempo vergonha de fazer algo.
Parece angustiante viver assim, se sentir constantemente julgada por olhos invisíveis, dedos em riste apontando enquanto gargalhadas e zombarias são ouvidas ao fundo, mesmo se não houvesse mais ninguém no mundo.
Infelizmente, é assim que eu vivo, e, obviamente, tenho vergonha disso.
Não gosto de receber visitas, pois o que pensariam das minhas paredes coloridas? Amo me esconder embaixo de camadas de roupas em uma manhã fria. Sei que vou acabar descartando este texto quando estiver mais ou menos no meio, e a voz que só sabe me criticar começar a falar alto demais para ignorar.
Talvez haja um nome científico para o que eu sinto. Um número aleatório nos registros da academia de psicologia talvez me explique. É uma pena que eu tenha vergonha demais para pedir por ajuda. Como eu poderia sentar e falar sobre minha vida?
Como eu poderia dizer que aos 19 anos perdi o ponto do ônibus por ter vergonha de pedir pra descer? Que aos 18 entrei na faculdade que minha mãe queria, por vergonha de dizer que não gosto de engenharia?
Só de pensar já sei que seria julgada, ou pior, sentiram pena.
E por isso tenho vergonha de dizer que aos 17 anos passei calor por todo o verão. Sentia vergonha de dizer aos meus avós que quebrei acidentalmente o ventilador de teto do quarto de hóspedes.
Minha mãe viajou a trabalho quando eu tinha 16 anos, ela me disse para pedir pizza no jantar porque eu não sabia cozinhar, mas passei dois dias sem comer, por vergonha de atendar a porta quando a pizza chegasse.
O pior foi quando eu tinha 15 anos e fiquei de recuperação em matemática. Fiquei com tanta vergonha que não fui no dia da prova. Quase reprovei, isso seria ainda mais vergonhoso.
Aos 14 anos cortei meu cabelo pela primeira vez em muito tempo. Não tinha cortado antes por vergonha do que todos achariam da mudança, mas tive que fazê-lo depois que ouvi as meninas no banheiro dizendo que ele era feio.
Também mudei as roupas que eu vestia com 13 anos, percebi que todos da minha idade só andavam de preto, não suportaria a vergonha de me destacar com minhas roupas de criança.
Antes disso não me lembro, mas tenho certeza que tive vergonha de infinitas coisas, e ainda sentirei muita vergonha nos meus restantes anos.
Sei que não descansei verdadeiramente nem por um segundo em toda a minha vida, constantemente imaginar o que todos pensam, é muito cansativo. Também nunca vivi pra mim. Sempre fiz o que os outros achariam interessante, ou melhor, o que não chamaria atenção deles.
É vergonhoso dizer que ainda tenho esperança de algum dia ser diferente? Sim, certamente é. Por isso prefiro continuar assim, coadjuvante na história de todos.
Na verdade, sou figurante. Não me foram dados monólogos cativantes, nem mesmo tenho falas. Sou a menina fantasiada de árvore que só está ali por que todos tinham que participar de alguma forma.
Escondo meu rosto atrás das folhas, o holofote muito longe de mim. Certamente que ninguém me olha, mas me sinto observada mesmo assim. Naquele momento preferia estar no backstage, ou melhor, ter ficado em casa. Dessa forma ninguém me julgaria por ser uma árvore sem graça.
A diferença, entretanto, de uma peça para a vida real, é que a peça uma hora acaba, porém eu, vivo assim, sem saber quando será o final.
Comments