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Perda filosofal; revisitando Hogwarts

  • Writer: Mariana Ayres
    Mariana Ayres
  • Dec 28, 2021
  • 5 min read
“O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, n 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.”

O Menino que Sobreviveu. Ler o nome do primeiro capítulo do primeiro livro de Harry Potter depois de tanto tempo me deixou com uma sensação incrível de nostalgia. Me lembro de sorrir, olhar pro teto, respirar fundo e só então continuar a leitura.


Me peguei seguindo exatamente os mesmo passos mais de uma vez durante todo o livro. Revisitar Hogwarts foi extremamente emocionante para mim. Tomei cuidado em ler cada capítulo minuciosamente, de forma a não perder nem uma letra e ter a experiência completa mais uma vez.


Tenho diversas críticas a escrita de Rowling, apesar de provavelmente não conseguir fazer melhor do que ela,—sou mais como um cliente de um restaurante criticando o chef, que estudou nas mais renomadas escolas de culinária, por ter colocado mais limão do que eu gostaria no suflê—, mas todo o resto compensa, de forma que a falta de aperfeiçoamento da autora passa despercebido.


Diferentemente dos que o seguem, o primeiro livro dessa saga não é carregado com mais informações novas do que somos capazes de lembrar durante uma vida inteira. Aprendemos junto com o personagem principal as mais diversas estranhezas do mundo mágico, assim como diversas coisas que nos fazem desejar que esse mundo realmente existisse, e em momento algum nos perdemos, pois novos aspectos são apresentados de forma simples e fácil de lembrar.


Isso é na verdade uma coisa que não mais me atrai. Hoje em dia fujo de livros chamados “maravilhosos”, do tipo que se passa em um mundo diferente do que estamos habituados, com novas criaturas, regras, línguas e conceitos. Mas em um passado nem tão distante, afinal de contas tenho apenas 16 anos e não 675 como Nicolau Flamel, esse tipo de literatura costumava ser meu favorito. Para aqueles que ainda gostam da literatura maravilhosa, recomendo veementemente esse livro. E para os outros, que não são muito apegados a novos mundos, me permitam uma rápida tentativa de convencê-los.


Não vou mentir, é preciso muita imaginação e mente aberta para absorver tudo o que essa saga tem a oferecer. Você precisará dar vida a cachorros de três cabeças, plantas que ao invés de raízes tem corpinhos de bebês e as mais diversas estranhices. Mas, se isso não for um problema, você irá ganhar uma boa leitura de sete volumes que juntos constituem um detalhadíssimo coming of age, com todas as dinâmicas de relacionamento possíveis, fortes laços de amizade, antagonistas bem desenvolvidos, vilões que realmente são uma ameaça, competições no meio da trama, diálogos engraçados, muito sarcasmo (o harry do sexto livro não sabia a hora de parar), castelos antigos, lutas contra dragões, mistérios intrigantes e muitas outras coisas que apenas quem já leu sabe (então leia pra saber).

Sei que a parte de “bruxaria” pode não ser legal pra todo mundo, e eu entendo quem prefere não ler por causa disso. Mas minha sincera, e provavelmente enviesada, opinião é que a bruxaria mostrada nesses livros é mais como os poderes de uma fada madrinha do que os rituais bizarros que muitos têm em mente. E fazendo uma leitura responsável, ninguém vai acabar a saga querendo ser bruxo na vida real (quer dizer, eu gostaria de receber uma visita do diretor de Hogwarts me chamando para estudar lá, mas estou fora de fazer qualquer avanço na direção da bruxaria que temos no nosso mundo).


Não sei se me lembro corretamente, mas depois do quarto livro Dumbledore aparece bem mais frequentemente na história. Se eu estiver certa, acredito que me acostumei com sua presença e até estranhei quando não li muito sobre o diretor nesse primeiro volume. Apesar disso, todas as partes em que ele aparece são espetaculares e sempre vem com as melhores falas e cenas.


{SPOILERS DAQUI PRA FRENTE}


“Não faz bem viver sonhando e se esquecer de viver, lembre-se.”
Dumbledore.

Os que me conhecem conseguiriam facilmente adivinhar qual foi meu capítulo favorito de leitura. Para mim, o doze foi sem precedentes o melhor. Quase todas as coisas que me deixaram urrando de raiva pela autora não ter incluído, estão presentes unicamente neste capítulo. Coisas como, o Harry sentindo falta dos pais que nunca conheceu, falas do Dumbledore, cenas do Harry sozinho e desenvolvimento dos personagens principais no âmbito da coragem.


Honestamente, não consigo aceitar que só tivemos duas, no máximo três se você apertar os olhos um pouquinho e olhar bem de perto, cenas do Harry pensando em seus pais. Fiquei indignada a cada capítulo que lia e não via o mísero pensamento de “meus pais estudaram aqui”, ou qualquer coisa que seja, cruzar a mente dele. Felizmente tivemos uma gotinha disso, depois de longos períodos de seca, no capítulo doze.


Meses antes de ler o livro, eu reassisti ao primeiro filme. No penúltimo capítulo, quando eles atravessam todos os desafios feitos pelos professores a fim de proteger a pedra filosofal, notei o quão horrivelmente adaptado essa cena foi para o cinema. No filme são apenas três desafios, sendo que um deles é bem mais leve do que no livro. Então acabei não gostando de como isso foi lidado das telas, mas no livro achei uma das partes mais geniais. E o desafio final, do espelho de Ojesed, foi realmente incrível. Apenas alguém que quisesse pegar a pedra, e não usá-la, iria conseguir fazê-lo.


Eu não me recordava da quantidade de vezes que a autora fazia questão de nos lembrar que bruxos usam aqueles chapéus horríveis. Eu já tinha deletado essa informação da minha mente, felizmente, mas fui dolorosamente lembrada disso a cada dois parágrafos na leitura. Pois comecei a imaginar esses chapéus iguais aqueles bem caricatos de bruxa, e não os cones pontiagudos e sem aba que a autora pensou.


Mas consegui continuar ignorando esse detalhe na maior parte do tempo. Invés disso, preferi focar em cada detalhe da evolução dos personagens. Amei cada demonstração de coragem que eles têm durante a história, especialmente o Neville, que vai de zero a cem em apenas dois capítulos.


“É preciso muita audácia para enfrentarmos os nossos inimigos, mas igual audácia para defendermos os nossos amigos.”
Dumbledore

{FIM DOS SPOILERS}


Na minha releitura, estou lendo todos os livros em inglês. A tradução de Harry Potter para o português, na minha opinião, transformou a leitura em algo muito rígido. Isso acaba dificultando a leitura e é uma das principais razões de diversas pessoas simplesmente desistirem do livro logo nos primeiros capítulos. Ler no idioma original está me ajudando a entender mais de cada personagem, o jeito que eles se expressam é muito importante para a descrição de cada um.


Mas de qualquer forma, me emocionei muito relendo o primeiro livro dessa maravilhosa saga. Apesar de não ter me alegrado muito com a escrita e escolhas da autora, isso não me impediu de ter uma experiência completa nesse mundo mágico mais uma vez!



 
 
 

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